País

Investigadores desenvolvem deteção automática do discurso de ódio nas notícias

Jose Luis Gonzalez

Investigadores do Porto vão desenvolver um serviço para permitir às empresas de comunicação social identificar automaticamente discursos de ódio em comentários às suas notícias, informaram hoje dois dos envolvidos no projeto.

O objetivo do projeto Stop PropagHate, financiado em cerca de 50 mil euros pela Google, é contribuir para um melhor entendimento do discurso de ódio ('hate speech') no caso do jornalismo 'online' e criar ferramentas informáticas que o minimizem, disseram à Lusa os investigadores Sérgio Nunes e Paula Fortuna, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

Através deste serviço informático, as empresas de 'media' vão poder verificar os comentários de ódio, bem como prever a probabilidade de uma notícia gerar comentários contendo esse tipo de discurso, acrescentaram os responsáveis pelo projeto, que fazem também parte da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Segundo indicaram, o discurso de ódio é cada vez mais frequente nos meios 'online', devido, sobretudo, à crescente participação dos leitores através de comentários às notícias ou de partilhas e comentários nas redes sociais.

"Se, por um lado, é importante manter os leitores interessados e envolvidos, agilizando os espaços de participação, por outro, torna-se um desafio lidar com todo o conteúdo recebido, devido à presença de linguagem ofensiva e discurso de ódio", frisaram.

A informação obtida por este serviço informático possibilitará quantificar a presença de discurso de ódio numa plataforma e eliminar esse tipo de comentários nas redes sociais.

Permitirá também ordenar e mostrar ao utilizador mensagens marcadas como ofensivas apenas em último lugar, diminuindo a probabilidade de serem visualizadas.

Na opinião dos criadores, este projeto sensibiliza para o problemática do discurso de ódio, que tem vindo a crescer na comunicação 'online' e que tem consequências negativas, não só para as pessoas alvo, mas também para a sociedade em geral.

"A influência dos 'media' na opinião pública tem sido largamente estudada, como é o caso do efeito das sondagens na intenção de voto. Da mesma forma, faz sentido pensar que podem contribuir para fomentar mais ou menos o discurso de ódio", disseram Sérgio Nunes e Paula Fortuna.

Os investigadores, que no decurso do projeto esperam avançar mais nestas questões, acreditam que o destaque dado a determinadas características (como raça, género, orientação religiosa, entre outras) para descrever grupos ou indivíduos, criam um ambiente propício ao discurso de ódio.

A "gestão ativa" destes desafios por parte de empresas de 'media' "passará sempre pelo reforço das redações e dos meios disponíveis para lidarem com a crescente participação e envolvimento dos leitores", referiram. E acrescentaram: "Ferramentas informáticas como as que pretendemos desenvolver serão peças importantes para lidar com a escala e complexidade do problema, mas não substituirão o envolvimento humano".

A ideia para este projeto surgiu da continuidade do trabalho da tese de mestrado de Paula Fortuna, que teve como tópico a deteção automática de discurso de ódio, orientada por Sérgio Nunes e inserida no projeto FourEyes (Intelligence, Interaction, Immersion and Innovation for 'media' Industries).

O financiamento agora atribuído pelo fundo de inovação Digital News Initiative (DNI), que resulta de uma parceria entre a Google e editoras de notícias da Europa e tem como objetivo apoiar o jornalismo através da tecnologia e da inovação, vai permitir que este projeto arranque ainda nestes primeiros meses de 2018.

Lusa

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