Futuro Hoje

Neste Natal vou fazer birra

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

É que ninguém me quer dar as prendas que “estão a dar”. Passo a vida a ler artigos “lá de fora” e neste Natal sou literalmente invadido por ideias de prendas de Natal que não há cá. É verdade, posso mandar vir algumas, posso contornar a coisa, mas fico sempre com o brinquedo pela metade. E de quem é a culpa?

É deles todos. É da Google, da Apple, da Amazon, da Microsoft desses tipos todos que fazem os brinquedos mágicos que os jornalistas lá de fora andam a experimentar e que não querem vender em Portugal. Eu explico, começa nos assistentes pessoais mas não é só. O Google Assistant, o Siri da Apple, A Alexa da Amazon e até o Cortana da Microsoft, nenhum deles fala português. Alguns falam português do Brasil mas é o mesmo que nada, já experimentei e dou-me melhor com eles a falar em inglês do que em “brasileiro”.

Eu, em casa, por gosto e dever profissional até faço a figura ridícula de apagar e acender luzes, de fazer listas de compras e pedir músicas, fazendo educadas solicitações em inglês, para uma entidade que me ouve, e responde, em várias divisões da casa. Para isso tive que comprar os aparelhos lá fora, um a um e quase como se estivesse a fazer contrabando.

É que estes assistentes virtuais marcam presença nas nossas casas através de colunas e ecrãs mais ou menos discretos que não encontra em nenhuma loja portuguesa.

Echo Plus da Amazon uma das colunas capaz de responder à nossa voz mas não em português

Echo Plus da Amazon uma das colunas capaz de responder à nossa voz mas não em português

Se for aos sites das marcas, por enquanto, leva com a mensagem , “de momento não pode ser vendido para o seu destino”. No caso da Amazon, com jeitinho, até já é possível comprar uma versão internacional e depois mudar os menus de alemão para uma outra língua mais civilizada. Isto é verdade para praticamente todas as manifestações físicas destes assistente virtuais que, por serem novidades, são das prendas mais mencionadas nas listas de todos os jornais sites e tv’s. Mas há mais.

Experimentem lá ir ver a loja dos gadgets da Google em Portugal, tem o novo Google Wifi um sistema para distribuir net em casa, e dois tipos de Chromecast, vídeo e áudio para usar com apps ligadas à aparelhagem ou à TV, para ouvir música da Net ou ver youtube ou Netflix, muito bom mas cá só se vendem as versões mais básicas. Escavando bem ainda pode comprar uns cabos avulso e é o que há, mais nada.

Não admira que muito portugueses nem saibam que a Google tem “coisas”. Agora forcem o browser a ir à loja da Google em Espanha … Ups, espera aí a Google vende telefones, e eu posso garantir que são dos melhores do mundo, que já os experimentei.

Espanha tem uma versão mais avançada do Chromecast, tem as tais colunas para comandar discretamente o Google Assistant, e a partir daí a TV, e as luzes e a listas das compras, por voz e em espanhol.

Tem câmaras e termostatos inteligentes e sistemas de realidade virtual, e também tem os tais cabos para o caso de perder os seus. Depois tentem os Estados Unidos e parece uma loja de brinquedos da nossa infância, mas para adultos.

Sim a Google vende coisas e não são poucas, mas não para nós

Sim a Google vende coisas e não são poucas, mas não para nós

Tem tudo o que está acima mas é aqui que vão descobrir os tablets da Google, os excelentes Pixelbooks os portáteis da Google, os alarmes que funcionam com Google Assistant e as fechaduras e as lâmpadas enfim.. estão a ver a ideia e não vou fazer a lista toda.

Um dos que mais me intriga são os auscultadores, dos que servem para ouvir música, mas que supostamente conseguem ajudar numa conversa com tradução simultânea, cada um fala na sua língua e os auscultadores ajudam a que nos entendamos. Quero experimentar.

O mesmo acontece por exemplo com a Amazon. O assistente Alexa está associado a um verdadeiro universo de gadgets que inclui até um relógio de cozinha. A Apple também tem a sua dose de acessórios e a famosa coluna com Siri, mas sem português. Até a Microsoft tem colunas que funcionam com Cortana, mas tenho cá um palpite que um dia destes acaba por adotar o Alexa… especulação minha claro.

Ou seja, bem podem dizer que os portugueses são dos que compram as novidades tecnológicas, mas estamos mesmo a ficar para trás.

Ao contrário do que se passava até há pouco tempo, as novidades, mesmo os objetos físicos, estão muito ligados ao funcionamento dos assistentes pessoais e estes são forçosamente uma tecnologia muito localizada, que tem que ser muito adaptada à língua e ao local de quem a usa.

Aqui vale mais o outro argumento, por muito que Portugal esteja na moda, somos de facto um mercado pequeno e eu tenho que me resignar a não ter os brinquedos da moda ou, na pior das hipóteses, teria que me ficar por uma birra das antigas.