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Lech Walesa lamenta morte de Gunter Grass, um "grande intelectual"

O Nobel da Paz e antigo presidente da Polónia Lech Walesa lamentou hoje a morte do escritor alemão Gunter Grass, considerando que era "um grande intelectual" e que partilhava com ele "uma visão semelhante do mundo, da Europa".

© Susana Vera / Reuters

"Era um grande intelectual que adorava Gdansk, como eu", disse o antigo presidente polaco, acrescentando: "Tínhamos uma visão semelhante do mundo, da Europa, da Polónia. Vimos o futuro em tons de cor de rosa, tirando consequências e lições de um passado negativo entre alemães e polacos", disse aos jornalistas em Gdansk, a cidada que dantes se chamava Danzig.

"Nós tínhamos muitas coisas em comum e pouco nos dividiu", recordou o líder histórico do sindicato Solidariedade, agora com 71 anos.

"Ele sabia que o meu pai tinha morrido por causa da guerra, e sabia que a errada conceção alemã teve um grande custo para o mundo, especialmente para a Polónia", concluiu, refereindo-se ao avanço das forças nazis pela Europa durante a segunga guerra mundial.

O escritor alemão Günter Grass, Prémio Nobel da Literatura em 1999, morreu hoje aos 87 anos numa clínica de Lübeck, anunciou a editora do autor. 

O escritor, poeta, dramaturgo e artista plástico, nascido em Danzig, a 18 de outubro de 1927, faleceu hoje de manhã, segundo escreveu a editora Steidl na sua conta do Twitter. 

Nascido a 16 de outubro de 1927, na antiga Danzig - tornada Gdansk na atual Polónia, onde detém o título de cidadão honorário, estudou naquela cidade até aos 16 anos, tendo-se alistado na juventude hitleriana.

Ferido e detido em 1945 na Checoslováquia, foi libertado no ano seguinte e voltou ao estudo das artes, instalando-se em Paris como escultor e escritor e, em 1956, publicou o primeiro livro, "O Tambor", que obteve sucesso mundial.

O livro seria adaptado ao cinema pelo realizador Volker Schloendorff, que recebeu uma Palma de Ouro em Cannes e o óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Neste livro e noutros, Günter Grass confrontou a Alemanha com o seu passado nazi, dizem os críticos, levado pela própria má consciência, que viria a ser assumida no livro auto-biográfico "O Descascar da Cebola" - lançado em 2006, e editado em Portugal no ano seguinte, quando revelou ter pertencido às Waffen SS, a tropa de elite de Hitler, aos 17 anos, alistado à força.

Esta militância viria a tornar-se uma das polémicas da sua vida, embora o autor tenha reiterado que se tinha fascinado, como muitos jovens, pelos submarinos, e não pelas forças de elite. 

Na Alemanha, depois da guerra, associou-se politicamente aos escritores antifascistas do "Grupo 47" e ao social-democrata  Willy Brandt, e mais tarde ao chanceler Gerhard Schroeder, aos ecologistas, e contra o presidente norte-americano George W. Bush.

Pai de quatro filhos, vivia em Lübeck, e escreveu cerca de trinta obras ao longo da carreira, a partir dos anos 1950, quando se dedicou à literatura, desde romances, poemas, peças de teatro, entre eles, "O Cão de Hitler" (editado em Portugal em 1966), "O Gato e o Rato" (1968), "O Linguado" (1977), "Em Viagem de uma Alemanha à outra" (1990).

Em 2012 a sua vida ficou marcada por outra polémica, depois de ter criticado Israel publicando um poema, acusando o país de "ameaçar a paz mundial", e o Estado israelita declarou-o então ´persona non grata´.

Entre outros, recebeu, em 1993, o Prémio Georg Büchner, e em 1999 foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, tendo a Academia sueca sublinhado que as "divertidas e negras fábulas de Grass retratavam uma face esquecida da História".

Günter Grass tinha uma casa no Algarve, e frequentava o Centro Cultural de São Lourenço, em Almancil, onde chegou a expor algumas obras na área das artes plásticas, como as aguarelas que acompanharam o livro "O Meu Século".

Lusa

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