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Crise na Grécia

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Objetivo dos credores é modificar Syriza ou forçá-lo a abandonar poder, diz investigador

Os credores internacionais apenas aceitam que o Governo grego aplique políticas de austeridade com o objetivo de modificar a natureza política do Syriza ou afastá-lo do poder, disse hoje à Lusa um investigador ligado ao partido da esquerda radical.   

© Laszlo Balogh / Reuters

"Os credores pretendem que o Syriza deixe de ser o que é hoje. Ou que se torne num partido que siga o caminho das políticas neoliberais, ou ser afastado o poder. É esse o objetivo", considerou em declarações à Lusa Andreas Karitzis, 40 anos, ex-professor de Filosofia na universidade de Patras e membro da direção do Instituto Nikos Poulantzas, fundado na década de 1990 e com ligações ao partido da esquerda radical que dirige o Governo da Grécia após as eleições de 25 de janeiro. 

Num gabinete da sede central do Syriza em Atenas, e após assentar o capacete da sua moto, Andreas Karitzis, também membro do comité central do partido, não esconde a sua preocupação pelos últimos desenvolvimentos das negociações entre Atenas e os credores internacionais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), que se arrastam há quase cinco meses. 

Na sua perspetiva, e atendendo ao atual impasse, defende que não deve ser assinado de momento qualquer acordo. 

"Não sabemos o que vai acontecer. A atual estratégia de austeridade irá atingir o Syriza de forma muito negativa. Defendo que não deve ser firmado um acordo, ver as consequências desta decisão nas duas partes, no Governo e nos credores, e de seguida discutir a possibilidade de um outro acordo", afirmou este quadro da formação da esquerda grega, que desde 2012 optou por se dedicar em exclusivo à atividade partidária. 

Desde janeiro também colabora com diversos ministérios na elaboração de projetos políticos específicos, na área da política digital ou da economia social. 

"Defendo que para já não devemos fazer um acordo, ver as consequências de um típico incumprimento, para nós e para os credores, e depois discutir se existe vontade para continuar a discutir. Haverá problemas com os bancos, entre outros, e veremos se os credores estão em condições de alterar as suas condições", disse. 

O ex-professor de Filosofia sublinhou que será muito difícil alguém acreditar que o acordo que está a ser discutido permita à Grécia garantir dinheiro para pagar a sua dívida, quando o país foi submetido desde 2012 a dois programas de resgate no valor de 240 mil milhões de euros, para além de um perdão parcial da sua dívida assumido pelos credores privados. E ainda com um aumento constante da dívida pública do país, que hoje atinge os 317 mil milhões de euros, quase 180% do PIB. 

Neste contexto, recordou que no início das negociações, em que o novo ministro das Finanças Yanis Varoufakis assumiu particular protagonismo, Atenas avançou com "diversas políticas económicas moderadas para recuperar a economia", reprogramar o pagamento da dívida "para não destruir a Grécia" e garantir o último empréstimo dos credores de 7,2 mil milhões de euros, suspenso desde agosto.

"Considerámos que seria uma solução sensata porque pensámos que os credores também estavam numa situação difícil porque o seu programa não funcionou na Grécia", assinalou. 

"O Syriza tomou o poder devido ao falhanço desse programa. Mas após vários meses de negociações sabemos que os credores não pretendem um acordo que nos permita enfrentar os problemas económicos e sociais do país", disse. 

Andreas Karitzis não deixou de censurar os credores por "apenas aceitarem" que o Governo do partido da esquerda radical continue a aplicar na Grécia políticas de austeridades, mas que contradizem o seu programa eleitoral. E independentemente de algumas "cedências" que ocorreram nas recentes discussões. 

"Estamos a tentar um acordo, mas cada vez que damos alguma coisa distanciam-se e pressionam-nos ainda mais", frisou. 

O investigador do Instituto Nikos Poulantzas revelou que no decurso das negociações apenas foi aceite pelas instituições uma "pequena modificação" do programa que não alterou o essencial.

"Tornou-se claro que não pretendem um acordo que permita à Grécia enfrentar de facto os seus problemas e que a eurozone seja um lugar onde é possível conviverem diferentes políticas ou orientações económicas, uma zona de pluralismo económico". 

E insiste: "Agora sabemos que não é o caso, a zona euro não permite a coexistência de diferentes medidas ou perspetivas económicas", antes de considerar que Bruxelas e o FMI pretendem forçar o Governo grego a aplicar as medidas dos anteriores governos "e mesmo que esses programas não tenham resultado". 

"Este programa que pretendem aplicar também não vai resultar, vai falhar de novo, e a sociedade e a economia gregas ficarão numa situação ainda pior", concluiu.



Lusa
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