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Telescópio Hubble

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Telescópio Hubble

A astrónoma portuguesa que zela pelo Hubble

Entrevista SIC Notícias

Cristina Oliveira é astrónoma e coordena uma equipa responsável por garantir o bom funcionamento de dois instrumentos do Hubble, o telescópio espacial que revelou a idade do Universo e que completa 25 anos em órbita no espaço. Em entrevista por mail à SIC Notícias, Cristina Oliveira conta o seu percurso profissional, explica os maiores sucessos do Hubble e lembra um momento mais caricato da missão.

Cristina Oliveira

A 24 de abril de 1990 foi lançado a bordo do vaivém espacial Discovery o telescópio  Hubble, da NASA e da ESA.  Da vasta equipa que cuida do telescópio há 25 anos há uma portuguesa que começou por ser engenheira e é agora umas das astrónomas responsável pelo bom funcionamento de aparelhos do telescópio.
 
Cristina Oliveira fez a licenciatura em Engenharia Física na Universidade Nova de Lisboa/Faculdade de Ciências e Tecnologia. Partiu depois para os EUA onde fez um mestrado em Física na American University em Washington D.C.. Foi então que decidiu mudar de área e fez o doutoramento em astrofísica na The Johns Hopkins University (JHU). 

Como é que então uma engenheira física da Universidade Nova de Lisboa chega então ao instituto responsável por instrumentos científicos a bordo do Hubble?
 
"Na JHU trabalhei com um telescópio espacial chamado "FUSE" ou "Far Ultraviolet Spectroscopic Explorer", que foi lançado em 1999 e  que foi o primeiro telescópio espacial da NASA controlado completamente por uma universidade", conta Cristina Oliveira, que explica que a experiência obtida na licenciatura, "em que trabalhei com sistemas de vácuo e com deposição de filmes finos, foi crucial para eu começar a trabalhar com o FUSE porque eles precisavam de alguém que soubesse trabalhar com sistemas de vácuo para monitorar os espelhos do telescópio (muito sensíveis a contaminação), antes deste ser lançado".

Tornou-se então perita na observação na região ultravioleta do espectro e nos instrumentos utilizados para este tipo de observações. E é aqui que entra o Hubble/ Space Telescope Science Institute (STScI), em Baltimore, o instituto responsável por assegurar a operacionalidade científica do telescópio espacial.

"Estando ainda afiliada com JHU trabalhei cerca de dois anos como consultora para o Hubble/Space Telescope Science Institute visto que precisavam de peritos na região do ultravioleta do espectro em preparação para a "servicing mission" de 2009 (onde um novo instrumento que funciona na região do ultravioleta do espectro foi instalado: o "Cosmic Origins Spectrograph", ou "COS"). Em 2009 comecei a trabalhar no instituto como cientista", revela.  

Cristina Oliveira é actualmente chefe da equipa que é responsável por dois dos instrumentos no Hubble: o "Space Telescope Imaging Spectrograph" ou "STIS" e o "Cosmic Origins Spectrograph" ou "COS". 

"Tenho cerca de 20 pessoas na minha equipa, e claro trabalhamos também com programadores (software engineers), engenheiros aeronáuticos, tanto do STScI como do Goddard Space Fligtht Center", entre outros. "Eu sou responsável por decidir em que é a que equipa trabalha, quem trabalha em que projectos, supervisionar todo o trabalho técnico que a minha equipa desenvolve e fazer também a gestão das pessoas na equipa". 

Os principais contributos do Hubble para a astronomia 
 
Questionada sobre o papel do Hubble e as descobertas mais importantes que fez ao longo de 25 anos em órbita, Cristina Oliveira utiliza a palavra "imensas".

Mas há pelo menos estas incontornáveis e determinantes:

O Hubble mediu a idade do Universo (13.7 biliões de anos) e descobriu que a expansão do universo está a acelerar. Foi graças às imagens de supernovas (explosão de estrelas) distantes captadas pelo telescópio, que os astrofísicos Saul Perlmutter, Adam Riess e Brian Schmidt ganharam, em 2011, o Prémio Nobel da Física. Concluíram, pela medição do brilho de supernovas em galáxias distantes, que o Universo está a expandir-se de modo acelerado, ao contrário do que se pensava.

"O Hubble observou as galáxias mais distantes que a humanidade alguma vez viu (Hubble Deep Fields). Estas galáxias estão tão longe que a luz emitidas por elas demorou cerca de 13 biliões de anos até chegar a nós. Ou seja, estamos a ver como o Universo era à 13 biliões de anos, cerca de 700 milhões de anos depois do Big Bang, o que nunca tinha sido feito antes", sublinha. 

A cientista destaca ainda o facto de o Hubble "ter medido pela primeira vez a composição química da atmosfera de uma planeta noutro sistema solar, detectando sódio, oxigénio, hidrogénio e carbono, na atmosfera do planeta HD209458b (também chamado "Osíris"); detectou a primeira molécula também na atmosfera de um planeta noutro sistema solar, metano, no planeta HD189733b.  O Hubble fez também a primeira imagem óptica directa de um planeta noutro sistema solar (Fomahault b)". 

O Hubble "foi crucial para fazer uma mapa tridimensional a larga escala da distribuição da matéria negra no Universo", afirma Cristina Oliveira, explicando que "a matéria negra não emite ou absorve luz, apenas interage gravitacionalmente com matéria normal. As observações com o Hubble mostraram que a matéria negra funciona mais ou menos como o 'esqueleto'sobre o qual a estrutura cósmica está construída". 

Os momentos mais marcantes da "vida" do Hubble
 
Em 25 anos de missão no espaço, são muitos os momentos que marcam a sua actividade. Até mesmo antes de entrar em órbita, conta Cristina Oliveira. "Por causa do desastre com o vaivém Challenger, o Hubble só foi lançado em 1990, apesar de estar pronto desde 19852. 

Apenas três semanas depois de estar a viajar no espaço, os cientistas detectaram, através das primeiras imagens que receberam, um problema no espelho principal do aparelho: "tinha uma minúscula deformação que causava distorção das imagens, chamada 'aberração esférica'.  A correcção deste "pequeno problema" foi realizada "com o sistema chamado COSTAR  ("Corrective Optics Space Telescope Axial Replacement")".

Seguiram-se varias missões ao Hubble para reparar vários sistemas e instalar novos instrumentos, todas elas momentos marcantes, segundo Cristina Oliveira "A última missão ao Hubble, agendada para 2005/2006 foi cancelada em 2004 por causa do desastre do vaivém Columbia. Depois de uma grande campanha dos cientistas e também do público, a NASA reconsiderou a decisão e decidiu finalmente avançar com a ultima missão ao Hubble, que aconteceu em Maio de 2009". 
 
"Os astronautas também são humanos!"
 
Foi durante esta última missão ao Hubble, em Maio de 2009, que Cristina Oliveira assistiu a um momento caricato.

"Eu fiz parte do contingente de cientistas que estavam numa das salas de controlo no Goddard Space Flight Center (GSFC) para prestar apoio ao astronautas enquanto estes faziam os "space walks" e caso houvesse algum problema ou questão relacionados com os instrumentos no Hubble. Foi uma oportunidade única e muito interessante. Estávamos em comunicação directa com os astronautas (e também com o centro de Houston) através de "headphones" e "voice loops", e claro ouvíamos tudo o que eles diziam, incluindo um palavrão quando um dos astronautas se frustrou porque a coisa não estava a correr muito bem. Os astronautas também são humanos!", brinca a cientista.

Quando terminar a missão do Hubble, segue-se um outro projecto em que gostaria de participar. "Gostava de trabalhar com o James Webb Space Telescope, talvez até antes do Hubble ser desactivado, gosto de aprender coisas novas e de ter novos desafios", conclui a astrónoma portuguesa.

Catarina Solano de Almeida
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