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Arménia recorda 100 anos de genocídio, Turquia insiste em "vítimas colaterais"

Os arménios recordam na sexta-feira os 100 anos da morte de cerca de 1,5 milhões dos seus antepassados que viviam no império otomano durante a I Guerra Mundial, apesar das críticas da Turquia que continua a rejeitar o termo genocídio. 

A questão arménia ganhou súbita atualidade na Turquia quando o jornalista turco-arménio Hrant Dink, redator do semanário Agos, colocou uma questão simples: "Havia um povo chamado Arménios que vivia nestas terras e que já cá não está. O que lhe aconteceu?". Perseguido, depois processado, o jornalista acabou assassinado frente à sede do seu jornal em 2007 por um jovem extremista nacionalista turco (Reuters/ Arquivo)

A questão arménia ganhou súbita atualidade na Turquia quando o jornalista turco-arménio Hrant Dink, redator do semanário Agos, colocou uma questão simples: "Havia um povo chamado Arménios que vivia nestas terras e que já cá não está. O que lhe aconteceu?". Perseguido, depois processado, o jornalista acabou assassinado frente à sede do seu jornal em 2007 por um jovem extremista nacionalista turco (Reuters/ Arquivo)

© Mahfouz Abu Turk / Reuters

Para Ancara, que não renega a sua antiga e histórica tradição otomana - um dos mais importantes impérios europeus durante cinco séculos -, a perda de tantas vidas inocentes e a expulsão das suas terras ancestrais foi um destino comum para as populações da região, cristãs ou muçulmanas, em tempos de crises, guerras e caos.   

Progressivamente, e após décadas de silêncio, a Turquia tem vindo a redescobrir a memória dos arménios. Livros sobre os massacres têm sido traduzidos para turco e historiadores dos dois países tentam através de investigações multidisciplinares restabelecer contactos e amizades, interrompidos desde inícios do século XX. 

A questão arménia ganhou súbita atualidade na Turquia quando o jornalista turco-arménio Hrant Dink, redator do semanário Agos, colocou uma questão simples: "Havia um povo chamado Arménios que vivia nestas terras e que já cá não está. O que lhe aconteceu?". 

Perseguido, depois processado, o jornalista acabou assassinado frente à sede do seu jornal em 2007 por um jovem extremista nacionalista turco. Mais de 100.000 pessoas assistiram ao seu funeral, e muitos se terão recordado de uma outra sua frase, quando se referiu a dois povos que estavam doentes: "Os arménios sofrem de traumatismo, e os turcos de paranoia...".  

Os livros escolares turcos sempre prescindiam de mencionar o que tinha sucedido a este povo em 1915, oito anos antes da queda do império otomano e da fundação da República da Turquia por Mustafa Kemal Ataturk.  

O atual Governo islamita-conservador, no poder desde 2002, reconhece que centenas de milhares de arménios morreram devido aos combates na Anatólia oriental e à política de deportações das autoridades otomanas, apesar de continuar a rejeitar o termo "genocídio". 

Para as autoridades arménias, e diversos investigadores, a prisão e execução das elites intelectuais arménias de Istambul na noite de 24 para 25 de abril de 1915, numa ação premeditada, assinala o início do genocídio. E sublinham que em apenas alguns meses dois terços dos arménios do Império otomano, cerca de 1,3 milhões de pessoas, desapareceram.  

Antes destes acontecimentos, dois milhões de arménios viviam em território otomano, com uma população total que rondaria os 20 milhões. Hoje, restarão 60 mil arménios a viver na Turquia, numa população de 75 milhões.  

A versão oficial turca reduz a 500.000 o número habitualmente aceite de 1,5 milhões de arménios mortos entre 1915 e 1917, e insiste que foi resultado de uma violência étnica exercida em ambas as direções. 

A interpretação turca sublinha ainda a função dos grupos armados arménios que existiam no leste da Anatólia e que se aliaram ao exército russo no combate às forças otomanas. 

Terá sido neste contexto que as autoridades otomanas deram ordem para "reinstalar" toda a população arménia da Anatólia na Síria, então parte do Império, supostamente para os manter longe da frágil fronteira caucasiana e eliminar a perspetiva de uma "grande Arménia" que incluiria a região leste da Anatólia. 

As centenas de milhares de arménios mortos nesta marcha forçada são assim consideradas pela Turquia "vítimas colaterais" de uma situação de descontrolo em tempos de guerra. 

A resposta turca às mais recentes publicações sobre o genocídio arménio consistiu na recente inauguração, na capital Ancara, do centro de investigação Nova Turquia e onde se revelam "massacres" cometidos por grupos arménios nesse período. 

Foi o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan a inaugurar estas instalações, que fomentam a "versão turca" dos acontecimentos. O mesmo Erdogan que em 2014 surpreendeu o mundo ao exprimir, ainda na qualidade de primeiro-ministro, as suas "condolências" aos "netos dos arménios que perderam a sua vida no contexto de inícios do século XX", e assegurar que "os incidentes da I Guerra Mundial são uma dor compartilhada". 

No entanto, em 2015 Erdogan optou por um gesto menos conciliador, ao programar a celebração do centenário da batalha de Gallipoli (a famosa batalha dos Dardanelos, entre 25 de abril de 1915 e 9 de janeiro de 1916), para o mesmo dia em que a Arménia celebra o seu genocídio.  

Apesar de alguns progressos nos últimos anos, as relações turco-arménias voltaram a regredir ultimamente e a fronteira entre os dois países mantem-se encerrada devido aos contenciosos políticos. 

Assim, o debate sobre o genocídio não é o único que mantém distantes Ancara e Erevan, quando a Turquia continua a rejeitar normalizar relações enquanto este vizinho do Cáucaso do Sul mantiver ocupado o território do Nagorno-Karabakh, no Azerbaijão, um país muçulmano e estreito aliado de Ancara. 


Lusa
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