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Nobel da Literatura Orhan Pamuk critica Presidente turco e diz recear guerra civil

O escritor turco Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura 2006, avisou hoje que a Turquia pode entrar em colapso e acusou o Presidente Recep Tayyip Erdogan de "calculismo" face aos curdos, dois dias após o atentado de Ancara.

© Murad Sezer / Reuters

"A derrota eleitoral [nas legislativas de junho] deixou Erdogan furioso (...)" e a população curda da Turquia "recusou conceder-lhe o seu voto para o seu projeto de República presidencial", considerou Pamuk, que atualmente se encontra em Nova Iorque, em entrevista ao diário italiano La Reppublica.

"Governo e exército decidiram recomeçar a guerra contra o movimento curdo", afirmou o autor de "Os Jardins da Memória " ou "Istambul, Memórias de uma Cidade".

"É a nação inteira que hoje compreende o cálculo de Erdogan", acrescentou. "Primeiro, porque não quis integrar a coligação que combate o califado islâmico. Depois, aceitou fazer o que lhe pediram os americanos. Mas ao mesmo tempo que o Califado [referência ao grupo Estado Islâmico, EI], também começou a bombardear os curdos".

Ao ser interrogado sobre a possibilidade uma guerra civil, disse "recear" essa possibilidade. "As ruas da minha cidade [Istambul], sobretudo na década de 1970, testemunharam um verdadeiro conflito entre militantes de esquerda e de direita. Todas as pessoas com mais de 35 anos têm memórias terríveis desse período e não querem que se repita".

A oposição pró-curda e de esquerda intensificou os ataques contra o Presidente turco, que acusa de ser responsável pelo atentado de sábado em Ancara, o mais mortífero da história da República da Turquia fundada em 1923, e que provocou pelo menos 97 mortos e mais de 200 feridos a três semanas de novas eleições legislativas antecipadas.

"A notícia do atentado [de Ancara] quebrou o meu coração. Reagi ao referir que todos os turcos liberais, os democratas, os laicos estão com os curdos e simpatizam com eles, porque esse povo quer a paz", declarou Pamuk.

"Um país em paz encontra-se subitamente em guerra, em simultâneo contra o califado islâmico e contra o PKK", os rebeldes curdos da Turquia, acrescentou.

A oposição acusa Erdogan de fomentar e agravar o conflito curdo na esperança de atrair o eleitorado nacionalista. Nas legislativas de 7 de junho os islamitas-conservadores do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), no poder, perderam a maioria absoluta que detinham desde 2002 -- em particular devido à importante votação no pró-curdo Partido Democrático dos Povos (HDP) -- e esfumando as esperanças de Erdogan de garantir alterações à Constituição para reforçar os seus poderes.

Lusa

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