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Vírus Zika terá entrado no Brasil mais de um ano antes de ser detetado

O vírus responsável pela atual epidemia de Zika terá entrado no Brasil entre maio e dezembro de 2013, mais de um ano antes de ser detetado, revela um estudo hoje publicado na revista científica Science.

© Josue Decavele / Reuters

A conclusão resulta da primeira análise do genoma do vírus de Zika a circular atualmente na América do Sul, realizada por cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e do Instituto Evandro Chagas, no Brasil.

"Através de uma análise genética, combinada com uma análise epidemiológica, o que observamos é que provavelmente houve uma entrada única do vírus nas Américas, entre maio e dezembro de 2013", disse à Lusa o investigador português Nuno Faria, da Universidade de Oxford e professor convidado do Instituto Evandro Chagas.

Como o sistema de vigilância epidemiológica no Brasil detetou o surto de Zika em 29 de abril de 2015, os cientistas concluem que o vírus esteve pelo menos um ano a circular no país sem ser detetado.

"Isto é importante porque alerta-nos para a melhoria dos sistemas de vigilância epidemiológica para detetarem vírus que não tenham ainda sido detetados no país", explicou Nuno Faria.

Questionado sobre a explicação para esta demora na deteção, o investigador lembrou que num país com mais de 200 mil habitantes e com outros vírus, como o Dengue ou o Chikungunya, que causam sintomas relativamente semelhantes ao Zika, "qualquer epidemia pode passar despercebida".

Além disso, sublinhou, "apenas 20% das infeções por Zika são sintomáticas".

O estudo conclui também que o vírus presente no Brasil "é mais proximamente relacionado com os vírus que circulavam na Polinésia Francesa e em outras ilhas do Pacífico e que a data estimada da introdução no Brasil coincide com um aumento de 50% nas entradas de passageiros aéreos provenientes de países previamente afetados por epidemias de Zika.

Os investigadores admitem que o vírus tenha sido introduzido durante a Copa das Confederações, que decorreu no Brasil em junho de 2013 e envolveu a participação do Taiti, uma ilha da Polinésia Francesa, onde uma epidemia de Zika afetou mais de 31 mil pessoas entre outubro de 2013 e abril de 2014.

Outra conclusão do estudo tem a ver com a relação entre o Zika e a microcefalia.

Cruzando os dados sobre o número de casos de Zika registados semanalmente e o número de casos suspeitos de microcefalia, os cientistas concluíram que existe um intervalo de cerca de cinco meses entre ambas as curvas.

"Conseguimos perceber que (...) em média as mulheres grávidas são infetadas na semana 17 após a conceção", disse Nuno Faria, ressalvando no entanto que ainda não está definitivamente comprovada a causalidade entre o vírus e a doença neurológica.

Segundo o cientista, o estudo permitiu também perceber que "provavelmente todas as linhagens [do vírus do Zika], seja a africana seja a asiática, têm propensão para provocar microcefalia e malformações congénitas" nos fetos.

Esta relação entre o vírus e a microcefalia pode ter passado despercebida antes da epidemia do Brasil "porque o Zika tem sido classificado ao longo do tempo como doença não prioritária e tem causado apenas pequenas epidemias", disse ainda Nuno Faria, lembrando que mesmo no caso da Polinésia Francesa, que teve um surto em 2013-14, só agora os cientistas associaram o vírus às malformações, num estudo retrospetivo.

O estudo da equipa de Nuno Faria baseou-se no sequenciamento de genomas do vírus do Zika, incluindo um de um doador de sangue, um de um adulto que morreu da doença e um de um recém-nascido com malformações congénitas e microcefalia, uma doença rara em que a cabeça do bebé é muito mais pequena do que o normal.

Com recurso a tecnologia de última geração, os cientistas sequenciaram sete genomas provenientes do Brasil e compararam-nos com outros genomas já existentes do vírus do Zika, tendo encontrado pouca variação genética entre eles.

"Ainda é preciso muito trabalho para monitorizar e prever a disseminação do Zika no Brasil. Ainda este ano teremos uma ideia muito mais clara sobre o vírus", disse Nuno Faria, que em maio estará envolvido num estudo que pretende sequenciar mil genomas do Zika no Brasil.

O vírus do Zika, transmitido pelo mosquito 'Aedes aegypti', provoca sintomas gripais benignos, mas está também associado a microcefalia, assim como ao síndroma de Guillain-Barré, uma doença neurológica grave.

O Brasil, o país mais afetado pelo surto de Zika, já registou mais de um milhão e meio de casos.

Na quarta-feira, o Brasil confirmou 907 casos de microcefalia e 198 de bebés que morreram devido a este problema congénito desde o início do surto.

As autoridades estão ainda a investigar se a malformação afeta outros 4.293 bebés com sintomas parecidos.

Lusa

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