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Estudo confirma que açoitar crianças produz efeito contrário aos objetivos

Quanto mais açoitadas forem as crianças, maior é a probabilidade de desafiarem os pais e mais desenvolvem comportamentos anti-sociais, agressividade, problemas de saúde mental e dificuldades cognitivas, revela um estudo das universidades do Texas e de Michigan.

A investigação, publicada na última edição do Journal of Family Psychology, olha para os dados recolhidos em 75 estudos nos últimos 50 anos, envolvendo um universo de 160.927 crianças.

Os seus autores reclamam ser esta a análise mais completa até agora realizada sobre o açoite - definido como uma palmada de mão aberta nas nádegas ou nas extremidades, braços ou pernas - e os seus efeitos específicos, por comparação com outros estudos que incluem outros castigos físicos das crianças nas respetivas análises.

"Concluímos que o açoite está associado a resultados prejudiciais não esperados e não está associado à obediência imediata ou a longo prazo, que são os objetivos dos pais quando disciplinam os seus filhos", afirma a autora principal do estudo, Elisabeth Gershoff, professora de Desenvolvimento Humano e Ciências da Família na universidade norte-americana do Texas em Austin, num comunicado divulgado pela instituição.

Gershoff e Andrew Grogan-Kaylor, co-autor do estudo, professor na Universidade de Michigan, concluíram que o açoite está associado de forma significativa a 13 entre 17 resultados examinados, todos prejudiciais.

"O principal remate do estudo é que o açoite aumenta a probabilidade de uma variedade alargada de resultados prejudiciais nas crianças. O açoite provoca portanto o oposto do que os pais pretendem normalmente com ele", sublinha Grogan-Kaylor.

Gershoff e Grogan-Kaylor testaram alguns dos efeitos a longo prazo entre adultos açoitados enquanto crianças e perceberam que quanto mais agredidos tinham sido maiores eram os comportamentos antissociais e os problemas mentais experienciados. Estes adultos eram também os maiores defensores da punição física dos próprios filhos, o que ilustra uma das principais formas como esta forma de educação passa de pais para filhos.

Os investigadores norte-americanos sublinham no comunicado que cerca de 80 por cento dos pais em todo o mundo açoitam os filhos, de acordo com um estudo da Unicef de 2014, não obstante não existirem provas de quaisquer efeitos positivos decorrentes desta forma de educação e, pelo contrário, como nota Gershoff, de haver evidência ampla de que o açoite constitui um risco negativo para o comportamento e desenvolvimento da criança.

Tanto o açoite como os abusos físicos estão associados aos mesmos resultados prejudiciais nas crianças, na mesma direção e quase com a mesma intensidade, reforçam os investigadores.

"Nós, enquanto sociedade, olhamos para o açoite e para os abusos físicos como comportamentos distintos", afirma Gershoff. "No entanto, a nossa investigação mostra que o açoite está ligado aos mesmos resultados prejudiciais que o abuso, apenas num grau ligeiramente mais baixo", remata.

Estes resultados, de acordo com a investigadora, são consistentes com as conclusões de um relatório recente do Centers for Disease Control and Prevention, que apelou ao "compromisso público, campanhas de educação e abordagens legislativas para reduzir a punição física" das crianças, incluindo o açoite.

A legislação norte-americana não proíbe a punição física das crianças, vê mesmo esta conduta como aceitável, apesar da sua taxa de aceitação ter diminuído consideravelmente de 84% em 1986 para 70% em 2012. Na Europa, a França foi criticada em 2015 pelo Conselho da Europa por não proibir claramente todas as formas de castigo corporal das crianças, ao contrário da maioria dos países vizinhos.

Portugal, Itália, Bélgica, Irlanda e Grécia foram alvo em 2003 de uma queixa perante o Conselho da Europa por parte da Organização Mundial Contra a Tortura (OMCT), que considerava que a legislação portuguesa não protegia crianças dos açoites e outros tipos de punições físicas.

A instituição europeia respondeu à queixa dois anos depois, considerando que Portugal tem leis suficientes que permitem proteger as crianças dos castigos corporais; A OMCT argumentou, no entando, que não existe na legislação portuguesa nenhuma proibição explícita sobre castigos corporais por parte dos pais, e demonstrou ainda através de uma sondagem na altura que dois em cada cinco inquiridos acreditava que a lei permitia que dessem "uma bofetada/palmada aos seus filhos".

"Temos esperança de que o nosso estudo possa ajudar a educar os pais sobre os malefícios potenciais do açoite e levá-los a tentar formas positivas e não punitivas de disciplina", conclui Elisabeth Gershoff no comunicado da universidade norte-americana.

Lusa

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