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Eclipse do sol passou por Maputo mas quase ninguém deu por ele

A capital moçambicana acordou esta quianta-feira com as rotinas de sempre, apesar de ser um dos pontos privilegiados para assistir a um eclipse parcial do sol "exclusivamente africano", mas muita gente nem se apercebeu do fenómeno.

ANT\303\223NIO SILVA

Edson Salvador, 34 anos, vendedor ambulante há dez anos numa esquina do centro da capital moçambicana e, assim como muitos, não sabia que Maputo seria um dos melhores locais para observar o eclipse número 39 na série Saros, um fenómeno que decorreu das 09:30 (08:30 em Lisboa) às 14:00 (13:00).

Sentado à sombra da sua pequena banca, entre recargas de telemóvel, cigarros e rebuçados, o vendedor ambulante surpreende-se ao ser questionado sobre o eclipse, que ocorre em média em cada 18 anos.

"Eu nem sabia disso", diz à Lusa o comerciante, acrescentando que, num momento em que "as coisas não estão fáceis nos negócios", a luta diária pela sobrevivência é maior do que "qualquer fenómeno natural".

Apesar da divulgação do Instituto Nacional de Meteorologia e dos avisos para a tomada precauções por parte do Ministério da Saúde, à semelhança de Edson Salvador, para muitas pessoas foi um dia normal em Maputo, tanto que nem mesmo as instituições de ensino superior que lecionam ciências ligadas à astronomia organizaram atividades alusivas ao momento.

Na Universidade Eduardo Mondlane, a maior do país, quando o relógio marcava 10:30, hora prevista para o pico do eclipse, Hilário Cinquenta, estudante do terceiro ano do curso de Meteorologia, lamentava à Lusa o facto de a instituição não ter organizado qualquer atividade para registar o momento, que precisava ser "marcado para as próximas gerações".

"Não há nada aqui hoje, infelizmente", reiterou o estudante, observando que, noutros países, este fenómeno é tomado como um elemento de atração turística, além de abrir espaço de os estudantes aplicarem as teorias ensinadas nas instituições de ensino.

Para Augusto Januário, responsável pela repartição da radiação solar do Instituto Nacional de Meteorologia, Moçambique precisa de apostar na obtenção de material para registo deste tipo de fenómenos, condição para o desenvolvimento da pesquisa na área das ciências espaciais, tanto a nível científico como também a nível cultural.

ANT\303\223NIO SILVA

Em alguns pontos do continente africano, as comunidades das zonas mais recônditas interpretam os eclipses como uma bênção divina e o fenómeno é celebrado de diversas formas.

"Temos tentado encontrar parceiros para obter material apropriado para registar estes fenómenos, mas não é um processo fácil", explicou à Lusa o meteorologista, acrescentando que a capacitação de estudantes moçambicanos em matérias ligadas às ciências espaciais é um das formas de dinamizar a área.

O astrónomo Cláudio Moises é um dos exemplos de estudantes moçambicanos que formaram-se no estrangeiro e agora procuram desenvolver as ciências espaciais num país em que a área ainda é, de certo modo, marginalizada.

À Lusa, o astrónomo e agora doutorando pela Wits University, da África do Sul, diz que Moçambique ainda tem vários desafios no setor e a intenção agora é criar um movimento de cientistas que desenvolvam a área, garantindo, por exemplo, o registo de fenómenos como os eclipses.

"Hoje, com este fenómeno, era suposto que tivéssemos um programa sério, mas infelizmente ninguém fez nada", lamenta o astrónomo, acrescentando que o Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico-Profissional devia ter agendado um leque de atividades junto das escolas para explicar os alunos e também o público sobre o fenómeno.

Enquanto isso não acontece, Maputo esteve pouco preocupada com os ministérios astronómicos num momento histórico para as ciências espaciais, principalmente em África, mas para muitos, como é o caso de Eduardo Salvador, "foi mais um dia comum", em que o sol pareceu ter brilhado como sempre.

Lusa

ANT\303\223NIO SILVA

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