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Zedu vai mesmo embora? (e mais oito ou nove perguntas sobre Angola)

Themba Hadebe / AP

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação

O Comité Central do MPLA aprovou hoje as listas de deputados às legislativas de agosto. E José Eduardo dos Santos não encabeça a lista. O segundo presidente com mais tempo no poder em todo o mundo - 38 anos - vai mesmo sair. João Lourenço é o homem que se segue. Algumas perguntas e respostas sobre o que se pode seguir em Angola

1. José Eduardo dos Santos vai mesmo deixar a Presidência de Angola? Sim. Desta vez é mesmo a sério. Ao fim de 38 anos, a promessa de sair é cumprida, tal como foi anunciado no ano passado. José Eduardo dos Santos não encabeça a lista do MPLA às legislativas de agosto e, assim, deixa de poder ser Presidente, já que segundo a Constituição angolana, o número um da lista mais votada ocupa automaticamente o Palácio presidencial.

2. Mas então porque é que José Eduardo dos Santos está na lista, em terceiro lugar? Afinal não está na lista. De manhã, tudo indicava que o atual Presidente iria ocupar simbolicamente o terceiro lugar na lista do MPLA. Mas ao fim do dia, fontes oficias garantiram que essa ideia foi completamente posta de parte.

3. Porque é que "Zedu" sai neste momento? Durante algum tempo especulou-se que poderia sair a meio do mandato que ainda decorre, deixando o lugar a Manuel Vicente, seu vice e ex-líder da Sonangol. Mas o discreto engenheiro nunca agradou ao MPLA - não tinha carreira política, nunca tinha feito parte do Comité Central ou do Bureau Político - e caiu em desgraça quando foram divulgados casos judiciais em Portugal e, sobretudo, relatórios oficiais sobre a sua gestão na Sonangol. Com Vicente fora de pista, a sucessão só podia ser feita em eleições, o que acontece este ano. A outra solução seria assumir mais um mandato e sair a meio, mas isso "atirava" a saída para 2019 ou 2020 e José Eduardo dos Santos não parece disposto a isso.

© Herculano Coroado Bumba / Reu

4. É verdade que José Eduardo dos Santos está doente? Não há qualquer confirmação oficial sobre o estado de Saúde do Presidente, apesar das frequentes idas a Barcelona, onde é seguido. Mas é seguro que a situação de saúde não é muito boa ou, pelo menos, não foi no ano passado quando o Presidente acelerou a sua sucessão. A especulação é recorrente, tal como os desmentidos oficiais. Mas é natural que a saúde, bem como a idade, tenham sido essenciais num processo sucessório que não era levado a sério até ao ano passado.

5. Quem é o seu sucessor? João Lourenço, general, ministro da Defesa e atual número dois do MPLA. Uma pessoa discreta, mas com profundo conhecimento das duas instituições mais importantes no país, as forças armadas e o MPLA. No fundo, João Lourenço tem tudo o que Manuel Vicente não tinha: o respeito, o conhecimento e a admiração do partido e do exército. As suas qualidades políticas ou diplomáticas são mais desconhecidas e alvo de análises muito diferentes. Como líder nacional, João Lourenço é uma incógnita.

6. Que garantias dá João Lourenço? A José Eduardo dos Santos, quase todas. À sua família, também? Ao partido e ao exército, idem. Ao país, ninguem sabe ao certo. João Lourenço travará qualquer agitação ou insurreição e tantará manter tudo nos eixos. E isso é, para muitos, o mais importante. No fundo, as verdadeiras almas pardas do regime, como os generais Kopelipa ou Dino, vão manter o poder político, militar e empresarial. O resto da elite política e militar também. E ninguém espera ajustes de contas ou listas negras.

João Lourenço, o general que é ministro da Defesa e vai ser o próximo Presidente

João Lourenço, o general que é ministro da Defesa e vai ser o próximo Presidente

7. Porque é que os filhos foram afastados da linha de sucessão? A ideia de que Isabel dos Santos ou o seu irmão José Filomeno, que está à frente do Fundo Soberano nacional, podiam ser os sucessores presidenciais sempre pareceu absurda. Mas ganhou alguma força no ano passado,apesar de sempre negada pelas fontes oficiais e pelos mais próximos do Presidente. A única filha que já era deputada é Tchizé dos Santos, mas num lugar pouco relevante. Isabel e José Filomeno ficam em lugares chave, sobretudo na atual situação financeira do país. A Sonangol é a empresa que define o futuro imediato de Angola e o Fundo Soberano é fundamental em gestão de tesouraria e aplicações financeiras. Num momento em que os estados estrangeiros e os bancos internacionais fecharam as portas ao país e quase não há divisas, eles têm a chave do cofre.

8. A transição será pacífica? Tudo indica que sim, pelo menos do ponto de vista político e militar. Não há nenhum partido em Angola com grande força eleitoral, a não ser que exista alguma grande surpresa na votação de agosto. Nas últimas eleições o MPLA teve 71% e deve voltar a vencer com facilidade, apesar de João Lourenço não ter a popularidade de José Eduardo dos Santos. Os maiores receios do regime são, assim, sociais: o desemprego, sobretudo dos jovens, a falta de perspetivas económicas, a péssima qualidade de vida das grandes cidades, sobretudo em Luanda, e a repressão policial de qualquer ajuntamento ou contestação são os principais perigos. Como se viu na desproporcionada reação ao caso Luaty Beirão, o regime tem mais receio deste tipo de contestação do que de protestos mais tradicionais ou orgânicos. São os movimentos sociais que mais podem abanar o regime.

Isabel dos Santos, fora da linha de sucessão, mas à frente da poderosa Sonangol

Isabel dos Santos, fora da linha de sucessão, mas à frente da poderosa Sonangol

© Ed Cropley / Reuters

9. O que vai acontecer à família? Esta é, seguramente, uma das questões que mais preocupou José Eduardo dos Santos antes de decidir a sucessão. Em África, e não só, há demasiados exemplos de ex-líderes que caem em desgraça ou são investigados e/ou ostracizados por quem lhes sucede. E o mesmo acaba por suceder aos seus familiares e mais próximos. João Lourenço garante que nada disso suceda, assegurando a calma e a transição pacífica no MPLA e no exército. A liderança de Isabel dos Santos na Sonangol, decidida há poucos meses, é exemplar desse processo. A gestora largou a maior parte dos cargos que tinha em Portugal para se dedicar em full time à reestruturação da Jóia da Coroa empresarial angolana. E tem feito um trabalho implacável, num momento em que a empresa está tecnicamente falida. Afastá-la do cargo era um suicídio económico, tal a dependência que o país tem da Sonangol.

10. E o que pode esperar Angola? Os maiores desafios são económicos e sociais. Esses são os grandes falhanços dos anos de José Eduardo dos Santos, que não conseguiu aproveitar um período de forte crescimento económico em benefício da população. A dependência absoluta do petróleo manteve-se e o país continua totalmente ligado às variações do preço da matéria-prima. 2017 promete algum fulgor ao preço do petróleo, devido a incertezas geo-políticas e ao eventual recuo que o Irão tenha que fazer nos mercados internacionais. Mas, a médio prazo, o país tem que diminuir drasticamente a dependência do ouro negro ou continuará a ser ultrapassado em todos os sociais pela maioria dos países africanos, incluindo os que têm muito menor potencial demográfico ou económico.

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