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Ajuda para educar 127 crianças no Bangladesh custa aos portugueses um café por ano

O valor de um café por ano doado por um milhão de portugueses daria para financiar na totalidade o projeto que a portuguesa Maria Conceição lançou no Bangladesh, que visa educar 127 crianças, estimou esta quarta-feira a filantropa.

Em entrevista à agência Lusa à margem das Conferências do Estoril - nas quais participou hoje -- Maria Conceição defendeu a ideia de que "não é preciso ser milionário, governante, decisor" para mudar a vida de crianças que precisam. "Basta querer ajudar", sublinhou.

A portuguesa desafiou o conselho dos seus médicos e concluiu seis triatlos 'ironman' em continentes diferentes em 56 dias.

A última prova do desafio "6x6" foi disputada segunda-feira na cidade brasileira de Florianópolis, na América do Sul, e concluída em 14:13 horas, o tempo mais rápido dos seis triatlos 'ironman', que consistem em 3,86 quilómetros de natação, 180,25 quilómetros de ciclismo e uma maratona (42,2 quilómetros), feitos consecutivamente e em menos de 17 horas.

O problema é que todo este esforço não tem resultado em donativos suficientes para a sua fundação no Bangladesh, dedicada a ajudar as crianças desfavorecidas "a quebrar o ciclo de pobreza", através da educação.

"Outras pessoas, de nacionalidades diferentes, que fizeram os mesmos desafios físicos que eu fiz recolheram muito mais dinheiro. Eu não consigo nem 20%, nem 10% do que eles fazem", lamentou Maria Conceição, dando o exemplo do britânico Edward Jackson.

"Ele [Jackson] ainda não tinha feito as maratonas e já tinha recebido 107 mil libras. Quando fez recolheu 770 mil libras. Isto é impensável em Portugal. Nós fizemos 5 mil libras", completou.

Ainda assim, esta verba paga a escola de cinco crianças no Bangladesh durante um ano, incluindo "livros, escola e professores", mas não alimentação.

Maria Conceição admite que o facto de ser portuguesa constitui um obstáculo aos seus objetivos.

"Dizem-me que com tudo o que tenho feito nos últimos doze anos, se tivesse uma nacionalidade diferente estas crianças já tinham todo o dinheiro necessário", referiu à Lusa.

"Às vezes tenho vontade de revogar a minha 'citizenship' [nacionalidade] ... Sinto-me muito desiludida. Na semana passada nem queria terminar o desafio. Para quê? As pessoas nem entendem o que estou a fazer", desabafou.

A responsável operacional da fundação, Daniela Mira, completa a ideia: os portugueses têm falta de hábito de dar.

"Acho que os portugueses, comparados com outros povos europeus, não têm o hábito de dar. Dizem 'não tenho o suficiente para mim, vou dar a estes que nem sei quem são? O governo é que tem obrigação'. O cinismo e a desconfiança do povo fala mais alto", salienta a responsável da fundação.

E os portugueses têm o suficiente para dar às crianças do Bangladesh?

"Então não têm? Se cada português nos der um euro nós temos tudo pago até ao fim e para o dobro das crianças. Melhor: se um milhão de portugueses nos der um euro... Se 10% da população nos der um euro, nós tínhamos dinheiro suficiente para acabar este projeto", afirma Maria Conceição.

Ou seja, educar 127 crianças do Bangladesh até ao fim dos 12 anos da sua escolaridade.

"É simples. Não é preciso ser milionário. Basta querer ajudar, com um euro. É não beber um café por ano. Não só conseguimos educar essas crianças nos 12 anos de escolaridade como conseguimos garantir a sua alimentação", afirmou Daniela Mira.

Lusa

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