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Putin optou por novo mito que recupera imagem do czar Nicolau II

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O especialista em história da União Soviética, Robert Service, considerou que o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, optou pela construção de um novo mito nacional que inclui a recuperação da imagem de Nicolau II, executado em 1918. "Nicolau II recuperou o respeito público na Rússia, desde 1991, com a desintegração da União Soviética. E o atual Presidente, Vladimir Putin, que sucedeu a Ieltsin em 2000, encorajou um continuado respeito pelos Romanov executados", assinalou, em declarações à Lusa, o académico e investigador britânico, que se encontra em Lisboa para apresentar o seu livro "O Último dos Czares".

A recuperação da imagem do último czar da dinastia dos Romanov, tema do livro "O Último dos Czares", agora editado em Portugal, poderá surgir como "paradoxal" por parte do atual Presidente da Federação da Rússia, antigo membro do KGB e do Partido Comunista.

No entanto, o académico considera que Putin tinha duas alternativas: ou vangloriava a revolução, ou seguia por outro caminho, quando os russos parecem enfrentar o dilema da tragédia ou do triunfo quando se aproximam as celebrações dos 100 anos da Revolução bolchevique.

"Apoiar a ideia de revolução? Quem seria a vítima dessa revolução? Seria o próprio Putin. Assim, optou pela reconstrução de um novo mito nacional, da Rússia eterna. Dizer que tudo o que de melhor aconteceu na Rússia é o que mantém continuidade: a fé religiosa, o conservadorismo social, a estabilidade política, o império", assinalou.

O líder do Kremlin explicitou esta sua abordagem quando se referiu à existência de "duas tragédias" que marcaram a história da Rússia no século XX, uma no início do período soviético, "quando a dinastia imperial foi executada em massa", e outra no fim da URSS.

"Quando a União Soviética colapsou Putin referiu-se à maior catástrofe geopolítica do século XX", recorda o académico, que na década de 1970 iniciou os seus trabalhos de investigação sobre a história contemporânea do país euroasiático, na universidade de Leninegrado.

"Para quem pretende governar a Rússia para sempre, existe uma lógica nesta posição. Ou pelo menos manter no poder um sistema que domine permanentemente a Rússia. E que permita a Putin e ao seu círculo manter a riqueza que têm acumulado, na Rússia e em paraísos fiscais no exterior", sustentou Robert Service.

O livro "O Último dos Czares" (Editora Desassossego [chancela do grupo Saída de Emergência], 2017) está longe de ser um registo laudatório para Nicolau II e sua família, executados pelos bolcheviques na casa Ipatiev em Ekaterinburgo (zona dos Urais), em 17 de julho de 1918, em plena guerra civil.

Neste seu livro, afirma que a liderança bolchevique e Lenine - que se encontrava em Moscovo quando decorria uma ampla ofensiva dos exércitos "brancos" czaristas e de forças invasoras de diversos países, para terminar com o novo poder soviético -, terá sancionado a execução da família real russa, apesar de os comunistas, em Ekaterinburgo, poderem ter emitido a ordem direta.

"A minha conclusão é que Lenine foi diretamente responsável", frisou Robert Service.

"A liderança comunista de Lenine em Moscovo estava aterrada com a perspetiva da situação militar em Moscovo, tal como os comunistas em Ekaterinburgo também recearam pela situação militar", precisou. "Também não existiu uma séria oportunidade de transferir pacificamente Nicolau II para Moscovo, que era o plano original. A decisão era deixá-lo viver ou não... Os britânicos e os franceses fomentavam a contrarrevolução em Moscovo e em outras regiões, os comunistas estiveram muito perto de serem derrotados, e a decisão de matar Nicolau II foi tomada num mês".

O pensamento de Nicolau II, o czar que abdica com a Revolução de fevereiro de 1917, a sua evolução, o seu tempo de cativeiro, constituem outro aspeto central deste trabalho de investigação.

"Nicolau II era muito evasivo face aos seus ministros, à sua corte, mesmo face à sua família. Era muito secretista, mas quando foi afastado do poder já não necessitava de ser tão evasivo, de fingir", sublinhou. "Consultei as conversas que então manteve sob detenção, falava abertamente, incluindo com quem o mantinha preso. Os guardas que o vigiavam gostavam dele, tentavam ser justos com ele, e tratavam-no com dignidade".

Mas, enquanto exerceu o poder (1894-1917) o "Czar Sanguinário", como ficou conhecido após a sangrenta repressão em São Petersburgo, em janeiro de 1905, no designado "Domingo Sangrento", manteve um comportamento despótico, autocrático.

No seu livro, Robert Service define-o de "extremista nacionalista, nostálgico iludido e antissemita virulento", avesso às reformas e ao reforço dos poderes parlamentares.

"Também foi condescendente com a atuação da União do Povo Russo (SRN), uma organização protofascista mesmo antes de o fascismo existir", recorda ainda o historiador, que atualmente trabalha num livro sobre Vladimir Putin.

Lusa

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