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Sobrevivente portuguesa de fogo em prédio de Londres vítima de intoxicação por cianeto

Uma menina portuguesa de 12 anos que sobreviveu ao incêndio na torre Grenfell, em Londres, que matou 79 pessoas a 14 de junho, foi vítima de envenenamento por cianeto, libertado durante o fogo.

Facebook.com/Andreia.Perestrelo

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Já se sabia que três sobreviventes tinham sido tratados com um antídoto contra o cianeto, mas esta é a primeira confirmação de um diagnóstico de intoxicação por este gás altamente tóxico libertado pelo revestimento ou plásticos enquanto estavam a arder.

Os relatórios médicos de Luana Gomes, de 12 anos, a que a BBC teve acesso, mostram que lhe foram diagnosticados "ferimentos por inalação de fumos" e "intoxicação por cianeto". Está ainda registado que recebeu duas doses de hidroxicobalamina para o envenenamento.

Além de Luana, a mãe e a irmã de 10 anos também receberam o tratamento. A mãe Andreia Gomes estava grávida de sete meses e perdeu o bebé após o incidente.

A mãe e as duas filhas portuguesas foram internadas no Hospital Kings College, colocadas em coma induzido. A mãe esteve nessa condição durante quatro dias, Luana durante seis dias e a irmã Megan esteve em coma durante uma semana. Só o pai Márcio Gomes ficou consciente.

BBC/NHS

Intoxicação por cianeto é comum nos fogos em habitações

O especialista da BBC em questões ambientais Roger Harrabin afirma que as intoxicações por cianeto são bastante comuns nos fogos em habitações, uma vez que a substância é usada no fabrico de plásticos e liberta-se quando estes ardem.

"Parece muito dramático porque o cianeto é conotado na cultura popular como uma arma de envenenamento", diz Roger Harrabin. "No entanto, o cianeto é também produzido por algumas bactérias, fungos e algas".

O cianeto também está presente naturalmente em algumas sementes e caroços de frutos, como das maçãs, pêssegos e alperces.

No caso do cianeto libertado em forma de gás durante um fogo, a inalação provoca dores de cabeça, tonturas, confusão, vómitos e convulsões. Altas concentrações causam morte imediata.

"Os efeitos são muito rápidos. Morre-se em segundos dependendo do nível de exposição", confirma o médico especialista em toxicologia Johann Grundlingh. "Quando respiramos oxigénio normalmente, as nossas células produzem energia. O cianeto bloqueia essa capacidade de produzir energia a partir do oxigénio", explica.

"Mataram o meu filho"

Toda a família portuguesa foi levada para o hospital, depois de o pai Márcio Gomes os ter salvado. A mulher perdeu o bebé aos sete meses de gravidez.

"Mataram o meu filho", acusou numa entrevista à BBC. "Tinha sete meses, podia ter sobrevivido, mas por causa do que aconteceu, morreu", lamentou.

Márcio Gomes contou como salvou a família. Tinha decidido ir fazer uma corrida nessa madrugada de 14 de junho quando as chamas chegaram ao seu apartamento no 21º andar, cerca das 4h00.

Márcio foi tratato no hospital por inalação de fumos mas permaneceu sempre consciente. Foi o primeiro a perceber que o bebé tinha morrido na barriga da mãe, embora não lhe tenham dito explicitamente.

"A Andreia não sabia de nada porque estava em coma induzido. As minhas filhas estavam nos cuidados intensivos e também em coma induzido", contou.

"Percebi que algo estava errado logo quando me disseram que a mãe era a prioridade. Fui-me abaixo porque sabia o que eles estavam a dizer, sem o dizer. Mais tarde disseram-me que o bebé tinha morrido", relatou Márcio.

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