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Quando os incendiários têm asas

Milhafre preto, uma das espécies estudadas devido ao comportamento de propagação do fogo para facilitar a caça.

Ariel Schalit/ AP

Os grandes fogos que na estação seca costumam afetar a Austrália podem ser, em parte, causados por insólitos incendiários. A ideia de que os pássaros manipulam o fogo não é nova, tem sido encarada pela comunidade científica com ceticismo, mas foi recentemente alvo de uma investigação que trouxe credibilidade à teoria de que na Austrália há incendiários com asas.

Um estudo, publicado no Journal of Ethnobiology, reuniu dados que demonstram que três espécies de aves desenvolveram estratégias de propagação das chamas para facilitar a caça.

Bandos de falcões negros e de outras duas espécies de aves, que habitam nas florestas do Norte da Austrália, são frequentemente avistados a caçar próximo de fogos florestais, conseguindo facilmente capturar pequenos animais atordoados pelo fumo e pelas chamas.

Quando um incêndio começa, as populações locais testemunham com frequência estas aves a transportarem paus em chamas para outros locais, ajudando assim a propagar o fogo.

"Nós somos muitas vezes enganados pelos pássaros", explicou ao The New York Times Robert Redford, um guarda-florestal, aborígene australiano.

"Combatemos o fogo e os pássaros conseguem atear outro incêndio, isso causa-nos muitos problemas (...) Por isso, os guardas-florestais têm a vida bem mais complicada quando querem combater as chamas", sublinhou Redford.

Rob Griffith/ AP (Arquivo)

Durante dois anos, Bob Gosford, ornitologista, e Mark Bonta, professor na Universidade de Altoona, na Pensilvânia (EUA), formaram uma equipa que recolheu documentos etnográficos e realizou entrevistas com seis testemunhas, incluindo guarda-florestais e aborígenes, que relataram casos de aves que recolheram galhos ainda em combustão e os transportaram para outros locais, a cerca de 1 quilómetro.

É por este motivo que muitas vezes milhafres-pretos e outras aves com comportamento semelhante são mortos por vigilantes das florestas, contou Mark Bonta ao The New York Times.

Os relatos sugerem que este comportamento das aves acontece quando os fogos entram em fase de rescaldo. Não se sabe ainda com que frequência acontece ou mesmo se realmente existe, uma vez que não há registos em foto ou vídeo.

Mesmo sem a existência de provas concretas, ornitologistas que anteriormente se mostraram céticos, consideram que a investigação etnográfica e os relatos agora recolhidos são muito convincentes.

Ariel Schalit/ AP

O milhafre-preto, uma das espécies relacionadas com estes comportamentos pirómanos, são já conhecidos por serem pássaros particularmente espertos.

"Eles parecem inteligentes e rápidos a desenvolverem formas de conseguirem alimento", explicou ao The New York Times Steve Debus, investigador da Universidade de Nova Inglaterra em Armidale, Austrália.

"Estes pássaros já foram vistos a roubar comida dos recreios escolares, incluindo das mãos das crianças, e sabe-se que usam pão que encontram em áreas de piquenique para atraírem e capturarem peixes", referiu Debus.

HOGP/ AP

Mark Bonta acredita que o comportamento pirómano destas aves não é observado com maior frequência porque, ao que tudo indica, apenas algumas aves em grandes bandos conseguem dominar essa técnica.

"É de notar que não recebemos relatos credíveis de turistas ou de pessoas que tenham avistado este fenómenos por mero acaso. Parece que apenas os que passam mais tempo em zonas florestais, em especial na época de incêndios, conseguem observar este comportamento", defende Bonta.

Para o povo aborígene dos territórios a Norte da Austrália, que conhecem intimamente a selva e o fenómeno dos fogos florestais, a ideia de que as aves propagam o fogo é normal. Os indígenas têm testemunhado desde há muito esse comportamento de certas aves que pode ajudar a explicar o grande impacto das chamas, no período mais seco do ano.

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