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Bernardo Ferrão

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Costa ganhou, mas as vacas ainda não voam

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Não sei se se lembram mas ainda há pouco tempo Assunção Cristas dizia alto e bom som que o Governo não tinha feito tudo que estava ao seu alcance para evitar as sanções. E depois foi Luis Montenegro, líder parlamentar do PSD, que veio acrescentar que só por "inabilidade e incompetência do Governo" haveria sanções, e que a culpa seria do Executivo de Costa caso a multa se confirmasse. Perante a decisão agora anunciada por Bruxelas a mesma direita veio congratular-se falando em “bom senso”, mas foi esse bom senso que faltou aos partidos de Passos Coelho e Assunção Cristas. Sobretudo ao PSD.

É verdade que ambos escreveram cartas contra as sanções, mas o problema é que de lá para cá os seus discursos radicalizaram-se. E apareceram, aos olhos de todos, demasiado colados à mão pesada de Bruxelas – Passos deu mesmo a entender este fim-de-semana que essas eventuais sanções refletiam a má governação de Portugal.

Passos pode agora dizer que também ganhou esta batalha, porque se era o passado, como dizia o PS, que estava em avaliação, esse passado não foi sancionado. O problema é que com esta decisão, Bruxelas fere (de morte?) a narrativa de Passos que pôs todas as fichas no cartão vermelho dos comissários. Encostou-se demais, e perdeu, por agora, margem de manobra.

Desde que começou esta novela tornou-se evidente que António Costa foi quem mais alimentou o folhetim. É que de ambos os cenários, com ou sem sanções, o primeiro-ministro retiraria proveitos políticos.

Não havendo multa, Costa perde o que poderia ser o pretexto – a Europa como inimigo externo – para provocar uma crise. Mas, por outro lado, e como se podia antecipar, o PM pode agora dizer que a argumentação que usou junto da Comissão foi eficaz. E, para consumo interno, tem caminho aberto para acrescentar que o seu executivo não só fez frente aos burocratas de Bruxelas, como até os ameaçou com processos em tribunal – até o BE fez voz grossa com um referendo.

O povo gosta disto – sobretudo depois do que passámos nos anos da “soberania resgatada” -, e a “geringonça”, com dois partidos antieuropeus, ganha novo elã.

Mas este jogo político que se segue é consolo de pouca dura. António Costa sabe que está numa prova de enormes obstáculos e que se mantém a desconfiança de Bruxelas. E por razões óbvias. A economia está morta-viva, e mesmo que tente esconder as faturas na gaveta, o Governo não ignora que caminha sobre gelo finíssimo.

Passada a novela mexicana das sanções, segue-se a discussão das medidas adicionais (com consequências para os fundos estruturais). Passos, num misto de coerência e teimosia, irá manter o mesmo discurso do “vem aí o diabo”. Marcelo continuará a passear a sua popularidade. E Costa por mais que nos diga que não há plano B, já todos vimos este filme. Em 2017 haverá mais austeridade. Seja pelas mexidas no IVA, pelas cativações ou por outra qualquer solução engenhosa.

Sr. primeiro-ministro afinal quando é que as vacas vão voar?

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