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Marcelo diz que Costa herdou um “trilho aberto com inquestionável mérito” por Passos e Portas

A frase é lapidar. Só peca, na minha opinião, por tardia. Tardou muito.

Marcelo já o tinha dito, por mais do que uma vez, referindo-se de forma elogiosa ao anterior Governo.

Mas o mestre da tática e do jogo político sabe muito bem o que diz, quando diz e, sobretudo, como diz.

Desta vez disse-o com tamanha clareza, que o elogio do passado sabe a tardio, requentado, a um requiem por dois líderes partidários que, goste-se ou não - deles e das políticas que puseram em marcha - enfrentaram os piores anos do Portugal democrático, sem instrumentos para desvalorizar – ou valorizar – a moeda, presos no espartilho de Bruxelas e condenados a um memorando que ajudaram a negociar, e assinaram, mas que foi, de facto, conduzido por outros.

Então, porquê agora, porquê nestes termos, porquê este travão à euforia das vacas que voam quando todos os indicadores apontam para sucessos atrás de sucessos no crescimento, na economia, nas finanças e no desemprego?

Porque em política, a vingança serve-se fria.

Para Passos, quando era primeiro-ministro de uma maioria parlamentar, a então hipotética-pseudo-candidatura de Marcelo a Belém não devia ter o apoio do PSD.

Marcelo era apenas "um cata-vento mediático" que não servia os interesses do País na cadeira presidencial.

Passos negou sempre que essa frase, que ficou célebre, se dirigisse a Marcelo.

Mas Marcelo percebeu que afinal era mesmo para ele e chegou até a anunciar que, sendo assim, não seria candidato.

(Tal como em 1996, Cristo desceu à terra e Marcelo não só foi candidato, como… bem, o resto já sabemos)

Marcelo ajusta, assim, contas com Passos, que está a dias de deixar de ser líder do PSD mas, ao mesmo tempo, já coloca pressão em Rui Rio.

O ainda só presidente eleito do PSD vai herdar o partido numa condição difícil, com uma margem de votos que não é esmagadora, e já tem um aviso presidencial: o trilho aberto por Passos e Portas, que Costa seguiu e alargou, é um desafio para a nova liderança.

O caderno de encargos presidencial ao seu antigo secretário-geral é claro: é preciso explicar bem como quer Rio fazer mais, melhor e diferente.

E, no fim, Marcelo lá estará.

Em Belém, sentado nos valores da sua popularidade albanesa que conseguiu nas ruas, nos afetos, mas que, como eu sempre disse, a popularidade que lhe dá o poder de dizer o que quiser e fazer o que quiser, com o povo sempre ao seu lado.

E a aparecer na fotografia.

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