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Anselmo Crespo

Abecedário político de 2015

Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Editor de Política

Austeridade. A palavra entrou no léxico nacional há muitos anos e não foi 2015 que conseguiu fazer a purga. Da Direita que insiste em mantê-la, à esquerda que acredita ser possível acabar com ela de vez, de uma só vez, a austeridade marcou o ano político que acaba e promete constar do abecedário do próximo.

Bancos. Os mais velhos aliados do poder político tornaram-se, nos últimos anos, um pesadelo para qualquer político que esteja no poder. É assim em Portugal, é assim lá fora. Foi assim nos últimos anos e vai continuar a ser. O BPN queimou o Governo de José Sócrates. O BES ainda tem o de Passos Coelho em lume brando. O Banif promete escaldar António Costa.

Cavaco. O homem que devia ser o fiel da balança foi amiúde acusado de deixar descair essa balança sempre para o mesmo lado. Cavaco Silva não está a ter um fim de mandato fácil mas não era ele que tinha tudo previsto? Como ficou provado, à evidência, não tinha. E o discurso que fez, quando indigitou Passos Coelho sabendo que ele cairia poucos dias depois, foi a prova provada de que António Costa lhe tinha feito xeque. O mate ainda está para vir.

Direita. E assim o país ficou em 2015 dividido entre Direita e Esquerda. Há quem diga que o centro desapareceu e que António Costa pretende passar os próximos anos à procura dele. Passos Coelho terá que fazer o mesmo se quiser recuperar o poder. Até porque esta conversa da legitimidade do governo já esgotou e o país precisa de uma boa oposição, tanto quanto precisa de um bom Governo.

Esquerdas. A convergência que tantos pediram durante tantos anos aconteceu finalmente. Não houve casamento porque nunca chegou a haver namoro. Houve um objetivo comum que foi suficiente para justificar tudo o resto. Se para expulsar o PSD e o CDS do Governo é preciso meter o PS no poder, então BE e PCP assinam por baixo... mas não um do outro. Um de cada vez, cada um com o seu "entendimento". É que se a dois é bom mas não chega, a três já dá, mas a confusão é maior.

Fadiga. De eleições e de campanhas eleitorais. De promessas e desilusões. Do diz que disse, do soundbite e da reação à reação. Do faz e desfaz. Dos avanços e recuos. Da política e dos políticos. A fadiga que as pessoas sentem, sobretudo, da crise e da austeridade.

Governo. Tivemos três, no espaço de um mês. O XIX de Passos Coelho, que terminou o mandato. O XX também de Passos Coelho, que fez história por ter sido o mais curto da história da democracia. E o XXI de António Costa entra para a mesma história como um dos maiores em número de ministros (18) e de secretários de Estado (41). É isso relevante? Pouco. Mais importante é saber se vamos ou não ser bem governados. E isso tem muito pouco a ver com o número de governantes mas antes com a qualidade desses governantes.

História. Por tudo o que se escreveu atrás e por tudo o que se escreve a seguir, o ano de 2015 ficará seguramente na História. Porque o PS acabou a governar o país tendo perdido as eleições. Porque António Costa conseguiu quebrar um muro que dura há anos e fazer pontes com PCP e com Bloco de Esquerda. Porque, por seu lado, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português decidiram suportar um governo PS, apesar de todas as divergências que têm com os socialistas. Porque Cavaco Silva foi literalmente encostado à parede e não podendo convocar eleições, foi obrigado a indigitar António Costa.

Inteligência. Alberto Caeiro escrevia que "Para além da curva da estrada, Talvez haja um poço, e talvez um castelo, E talvez apenas a continuação da estrada."Quando António Costa passou a curva da estrada e viu um poço, optou por ver antes um castelo. Com pouco feitio para liderar a oposição, na noite das eleições António Costa tinha duas hipóteses: ou ia para Fontanelas, em Sintra, onde mora, ou ia para São Bento. Optou pela segunda. Sentou-se à mesa com o PSD e com o CDS, mas foi com o PCP e com o BE que negociou a sério. Dia após dia foi retirando espaço de manobra a Passos Coelho e a Cavaco Silva e ganhando para si o espaço que lhe faltava.

Jerónimo. Aos 68 anos, o metalúrgico que um dia chegou a secretário geral do Partido Comunista Português, fez provavelmente a jogada mais arriscada da sua carreira política. Deu sustento a um Governo do Partido Socialista a quem virou as costas durante tantos anos. A decisão não foi pacífica dentro do comité central. Ainda não é. Nem nunca será, provavelmente. Mas está tomada e agora é torcer para que corra tudo bem. O problema está exatamente aí. Ninguém sabe ao certo o que significa correr bem para o Partido Comunista.

Km. Para baixo e para cima, de norte a sul, do litoral ao interior, os portugueses passaram o ano a ver políticos correr o país em campanha eleitoral. Ainda as legislativas não estavam na estrada e já nasciam candidatos presidenciais como cogumelos a tentar marcar território e a agenda mediática. O ano termina como começou. Em campanha para as eleições presidenciais. Se os candidatos dão uma ou duas voltas, depende do voto.

Legado. Qual será o de Cavaco Silva? 10 anos Primeiro-ministro. 10 anos Presidente da República. Para quem nunca se quis assumir como político, é obra. Está na origem de um dos desportos nacionais preferidos da Esquerda e, porque não dizê-lo, também de alguma direita: o "tiro ao Cavaco". Contribuiu para isso? Sim. Fez tudo mal? Não. Este não é seguramente o final de mandato com que Cavaco Silva sonhava, é o que as circunstâncias permitem.

Mário. Centeno. Como é mais conhecido. O homem em quem António Costa colocou todas as fichas antes da campanha eleitoral, sem grandes resultados práticos, diga-se, conseguiu, ainda assim, passar da sombra a ministro. A retórica política ainda lhe é estranha mas o que o país espera dele é que seja ministro de boas contas e, sobretudo, que tenha muito jogo de cintura para acomodar as reivindicações do PCP e do Bloco de Esquerda. Em grande medida a vida deste governo está nas mãos dele.

Negociações. A palavra faz a transição perfeita de 2015 para 2016. Depois do Governo, o Orçamento do Estado. Depois do Orçamento do Estado, o Programa de Estabilidade. Negociações em pacote, medida a medida, negociações para tudo, quase todos os dias. Vai ser este o dia a dia da Esquerda no Parlamento, com PSD e CDS a assistirem na primeira fila e à espera de um desentendimento que obrigue António Costa a bater-lhes à porta. Se isso acontecer, já avisou Passos Coelho, o PS tem de estar disponível para eleições.

Orçamento. Legislativas a 4 de Outubro e mais de 50 dias para se chegar a um governo que passasse no Parlamento deu nisto. 2015 vai terminar sem que haja orçamento para 2016. E agora? Agora é esperar que Mário Centeno seja mais eficaz a fazer contas do que é a responder aos deputados na Assembleia da República. E sobretudo, que tenha muito poder de encaixe porque para conseguir ter esse orçamento aprovado vai ter que encaixar muita coisa do PCP e do BE.

PAF. A sigla que todos julgavam derrotada acabou por conseguir sair vencedora nas legislativas de 2015 e só haveria de sucumbir no Parlamento porque mais ninguém se quis juntar a ela. O casamento entre o PSD e CDS desfez-se, amigavelmente e para já ficaram só amigos. Por quanto tempo? Só o tempo o dirá.

Quatro. Quantos anos dura o Governo de António Costa? À Direita fazem-se apostas. À Esquerda ninguém põe dinheiro em cima da mesa. Quatro anos? Significaria durar uma legislatura. Se assim for, António Costa ficará na História como um vencedor e livra-se de vez da imagem de um líder derrotado nas urnas e que mesmo assim, quis sentar-se na cadeira de Primeiro-ministro.

Rato. O Largo. Onde habita a família socialista que hoje governa o país e onde se sofreu muito ao longo do ano. A prisão de José Sócrates e as sucessivas entrevistas que deu a partir da cadeia de Évora. As críticas dos seguristas que nunca perdoaram a António Costa a forma como derrubou o outro António. O amadorismo no arranque da campanha para as legislativas com a bronca dos cartazes. São apenas alguns exemplos dos momentos difíceis que se viveram este ano no Largo do Rato.

Sobretaxa. Foi o embuste maior da campanha eleitoral da PAF. Qual cenoura acenada a um povo em vésperas de eleições, a promessa de devolver 35% da sobretaxa esvaiu-se poucas semanas depois. Não há problema. Paulo Núncio já não é secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e António Costa promete fazer melhor ainda. Devolver, de forma progressiva a sobretaxa já em 2016.

Tratado. Orçamental. 2015 pode ser o ano em que Portugal sai finalmente do procedimento por défice excessivo. Ou não. Tudo depende agora da gestão das contas públicas que o Governo de António Costa fizer e do comportamento da receita fiscal. Seja como for o atual Primeiro-ministro já disse que quer cumprir os tratados, apesar de o PCP e o Bloco de Esquerda não estarem nem aí para esse assunto. Se Portugal vencer esta batalha, a vida dos portugueses não muda no dia seguinte. E saber que na Europa voltarão a olhar para nós como o bom aluno, não é propriamente um grande consolo.

Universal. E tendencialmente gratuito. É isso que diz a Constituição sobre o Serviço Nacional da Saúde e sobre a Escola Pública. É também essa a grande bandeira do Partido Socialista e de António Costa. Será difícil encontrar um português, da extrema Esquerda à extrema Direita que não subscreva este ideal. O que tem sido difícil nas últimas décadas, com governos socialistas e sociais democratas, é encontrar o ponto de equilíbrio que nos permita ter o melhor de dois mundos: um Estado Social cada vez melhor e contas públicas equilibradas.

Vitória. Se era daqueles que achava que esta palavra tinha sentido único, enganou-se. Vencer umas eleições não chega para governar um país. Noutros países da Europa já se sabia disso há muito. Em Portugal só agora é que muitos portugueses perceberam que, num regime parlamentar, vence quem consegue a maioria dos deputados, mesmo que esses tenham sido derrotados nas urnas.

WWW.sicnoticias.sapo.pt. Tudo o que se passou em 2015 está aqui. Os vídeos, os textos, as notícias que marcaram o ano podem ser vistas e revistas à distância de um clique.

Xeque. Não foi apenas ao Presidente da República que António Costa fez xeque. Foi também a Passos Coelho, a Paulo Portas e a todos os que no seu partido nunca acreditaram que fosse possível chegar a acordo com o PCP e com o Bloco de Esquerda. Falta-lhe fazer o mate. Matar o rei significa, no caso de António Costa, ser bem sucedido no Governo e conseguir levar a legislatura até ao fim. Acabar com a austeridade rapidamente e, ao mesmo tempo, pôr ordem nas contas públicas e o país o crescer. Difícil?

Yields. Os mercados parecem ter convivido bem com a reviravolta política em Portugal. 2015 consolidou a descida dos juros da dívida pública portuguesa e o país gaba-se agora de ter uma boa almofada financeira que permite enfrentar tempestades de pequena e média dimensão. O desafio agora é aguentar assim e criar condições para que as agências de rating voltem a subir a nota de Portugal.

Zero. O número a que Portugal tem de fugir. Zero de crescimento económico, zero de expectativas. 2015 foi politicamente quente e economicamente frio. Era bom que em 2016 se invertesse a ordem dos fatores.

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