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Anselmo Crespo

Está tudo louco

Anselmo Crespo

Anselmo Crespo

Editor de Política SIC

Que a vontade de um povo é soberana, não há dúvidas. Que esse povo tem toda a legitimidade para escolher o futuro, é inquestionável. O que é verdadeiramente dramático nos dias que correm é perceber que faltam opções ao povo. Que falta futuro e falta, sobretudo, confiança nesse futuro. O Brexit é o exemplo acabado de como a Europa cavou a sua própria sepultura e está à beira de cair lá para dentro. Quinta-feira saber-se-á se morre ou não.

Já vamos a Inglaterra. Comecemos esta viagem pela Grécia. A União Europeia começou a desintegrar-se há sete anos, quando descobriu que um membro da família andou a martelar as contas públicas. Na altura, a toda poderosa Europa quis dar uma lição à Grécia. Por cada euro emprestado, atiravam-se uns quantos para o desemprego, levavam-se umas quantas empresas à falência, matava-se mais alguém à fome, ou de vergonha. Pulso forte, rigidez alemã, para ver se essa gente do sul aprende que a vida não é só sol e praia. A Grécia não era a França, como diria Jean Claude Junker, e por isso não há cá facilidades. Fez-se a austeridade e a caramunha ao mesmo tempo que se atiravam biliões de euros para um buraco negro. Disse-se o impensável. A Grécia pode sair do Euro? Pode, claro! Ou fazem o que queremos ou saem. Pólvora seca, pois claro.

Seguimos para Dublin, na Irlanda. A menina bonita desta União Europeia, que crescia 10% ao ano, afinal... Foi a especulação imobiliária. A crise financeira mundial. Foram os bancos. Arranjem aí uns culpados. Atirem para lá mais uns biliões dos contribuintes e apliquem-lhes uma boa dose de austeridade para ver se eles aprendem.

E chegamos a Lisboa. Capital daquele país que ia fazer o TGV, um aeroporto novo e mais 20 autoestradas. A Europa batia palmas de contente e dava dinheiro a rodos. O importante é chegar mais depressa de Madrid a Lisboa, conseguir transportar mais turistas e inaugurar uma obra por dia. É manter a economia a funcionar, no fundo. Não se produz nada? Também não é preciso. Estão cá a Alemanha, a França, Itália e Espanha para produzir. Vocês aí do sul só têm que comprar o que temos para vos vender e fazer obras. Façam muitas obras para manterem as pessoas ocupadas e com salário suficiente para nos

comprarem os carros e os produtos do supermercado. Correu mal. Como assim correu mal? Vão ao castigo. Querem dinheiro, vão ter que o suar. Cortam salários, pensões, vendem tudo ao desbarato e não reclamam.

Parece que andam aí a morrer umas pessoas no mediterrâneo. São ilegais. Mas olha que ainda são muitos. É mandá-los de volta. São mesmo muitos. O que é que se passa? Estão a fugir? De onde? Da guerra? Qual? Aquela onde estamos a dar uma ajuda. Humm... O que fazemos? Não sei. Cada um por si. Eu vou fechar as fronteiras. Eu só consigo receber uns quantos, o resto temos que os distribuir.

Regressemos a Inglaterra. O que é que é preciso fazer para ganhar eleições? Prometer um referendo à permanência na União Europeia. É isso mesmo. Se ganhar faço um referendo. Não concordo, mas faço na mesma. Temos que ganhar isto. Mas e se... o povo decidir mesmo sair da União Europeia? Isso pode ser catastrófico. Temos que fazer campanha pelo não. Morreu uma deputada? Por causa disto? My God... como é que perdemos assim o controlo? E agora? Agora é hope for the best.

São cinco exemplos. Podiam ser muito mais. A União Europeia, que é provavelmente o projeto político mais arrojado de sempre, está moribunda e num processo inacreditável de autodestruição. O caminho feito durante anos corre o risco de ser interrompido. As conquistas, e foram muitas, podem perder-se. O sonho, pode virar pesadelo. Falharam-nos os líderes porque verdadeiramente não os tivemos. Falhámos todos nós porque acordámos demasiado tarde para o que estava a acontecer. Ninguém ganha, todos perdem e no fim morremos todos. Está tudo louco. À falta de melhor explicação para o que está acontecer... esta é a melhor que consigo arranjar.

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