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António José Teixeira

Homens vulgares para tempos mais exigentes

Não houve crime. Não houve ilegalidade. Não houve favorecimento. Porém... houve irresponsabilidade, falta de ética enquanto cidadão, comportamentos arrogantes, respostas duvidosas e contraditórias. Pedro Passos Coelho lamenta não ter tido consciência das suas obrigações e que ninguém o tivesse chamado a atenção... Muitos anos de dívidas, de falta aos seus deveres, conduziram o primeiro-ministro a um feito notável, conseguido nos últimos meses da legislatura. Finalmente, pode dizer, como disse ontem: «Não tenho nenhuma situação fiscal e contributiva por regularizar.» E, por isso, ousou repetir sem que a voz lhe falhasse: «Cumpri as minhas obrigações.»

Há lamentos e reconhecimentos que não revelam humildade. Não se é humilde por utilizarmos a palavra humildade. Pelo contrário. Há um tom imperturbável, quase maquínico, que torna o registo de Pedro Passos Coelho invariável. Fala da Grécia ou do IMI como fala das suas dívidas à segurança social.

Passos não é perfeito. Ninguém é perfeito. E os políticos não podem ser perfeitos. Logo, desvalorizemos, relativizemos. Como diz Cavaco Silva, pagar ou não pagar «são jogadas político-partidárias»... Quem não errou que atire a primeira pedra. A vulgarização de Passos Coelho não é apenas um problema pessoal, enfraquece a sua autoridade e a do Governo, e contagia a política em geral. Todos terão telhados de vidro. Talvez por isso não tenha tardado que os rendimentos e a residência do líder do principal partido da oposição fossem questionados.

As fotografias foram tiradas. Estão aí. Como diz o presidente do grupo parlamentar do PSD, «cada português vai fazer o seu juízo». O caso parece encerrado, mesmo que tenha histórias mal contadas, mesmo que se queira dar a entender que tudo ficou como dantes. Caso encerrado, mas nem tudo ficou como dantes. A desconfiança e o descrédito alastram e, se houver lucidez suficiente, talvez obriguem a maiores rigores. Não é que os sinais conhecidos sejam os mais promissores. Ainda ontem foi perguntado ao primeiro-ministro se havia, ou não, uma «bolsa VIP» de contribuintes protegidos, que incluiria políticos e empresários. Passos ripostou que não, que a administração tributária já o tinha desmentido. Pois bem, basta ler hoje a revista Visão para percebermos que a verdade não é essa. Centenas de inspectores tributários em formação ouviram isso mesmo da boca de responsáveis das Finanças. Em que ficamos? Há mesmo contribuintes com privilégios? O sigilo é só para alguns? Que se pretende? Intimidar?

O combate político faz-se cada vez mais de sobreviventes. Há pouca convicção em quem disputa o poder e menos ainda em quem ainda vai votando no mal menor. Já não se têm grandes desilusões porque também não há ilusões. Daí que o cinismo continue a ser a mola vital da história política. Não são as ideias nem as escolhas. É o controlo de danos. Um caso mais ou menos escandaloso dura pouco. Se se resiste duas semanas, haverá condições para mudar de página. Outro caso virá. Contrapor um caso a outro ajuda a quebrar a intensidade. Já se fez a prova de que é possível manter em funções um primeiro-ministro durante anos sob suspeitas muito graves, como aconteceu com José Sócrates. As contribuições e impostos de Passos Coelho são «peanuts» comparadas com o Freeport de Sócrates. E Sócrates sobreviveu ao Freeport.

Ano após ano, legislatura após legislatura, o sistema político vai abanando. Abstenção crescente e novas forças dão sinais de revolta. Se os designados partidos tradicionais não se abrirem à sociedade, se não forem polos de inquietação e estudo, se não conseguirem atrair os melhores, se continuarem a violar as regras que eles próprios criam (o Tribunal Constitucional acaba de multar 10 partidos por ilegalidades nas suas contas, condenações recorrentes em todas as campanhas eleitorais), ficarão para trás. Não sei se os novos serão melhores. Desde logo porque a grande questão passa por nós próprios. Que disponibilidade temos para compromissos na nossa comunidade? Por que ideias queremos lutar?

Vivemos numa Europa, e num Mundo, que abdicaram de lutar por ideias. Há algumas franjas contracorrente. Mas a corrente dominante apenas se divide ou se contrasta pela geografia. O combate político perdeu vitalidade por se ter vergado ao peso das finanças. É tempo de homens pragmáticos, comuns, vulgares, tão repletos de pecados e pecadilhos como qualquer concidadão.

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