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António José Teixeira

A Grécia no abismo europeu

A decadência é provavelmente a única certeza para os próximos tempos da Grécia. Já muitos dias D se levantaram da agenda, mas a Europa dos últimos anos apenas se distingue pelo impasse. Já muitas culpas se distribuiram entre gregos e não gregos (uma estranha e sintomática identidade). Mais pelos gregos, chamem-se o que se chamem, sobretudo Varoufakis. Ao que parece a Europa está unida. A excepção grega apenas confirma a regra. 27 unidos pela Grécia. Ou contra a Grécia. Será mesmo a Grécia que move os 27? É difícil pensar que seja uma questão nacional. Não é crível. É berço da Europa e a sua cultura influenciou decisivamente o Ocidente. A batalha de Salamina, em que os gregos derrotaram os persas, marcou fronteiras antigas. Não será uma questão de regras. Quem não as violou ou não beneficiou das alterações? O grande problema é que ninguém está disponível a reconhecer o enorme fracasso da dieta imposta pelos credores à Grécia. É por isso que a Grécia tem o cutelo bem próximo do seu pescoço. O mais irónico é que não foi o desengravatado Syriza o responsável pelo fracasso. O Syriza é o herdeiro da desgraça e da revolta grega, o que é muito perturbador para quem não abdica de um modelo económico inquestionável que, mais tarde ou mais cedo, nos devolverá o progresso de outrora. A Grécia é apenas um dano colateral. Acontece. 

Visto de outro lado: a Grécia contra todos. Muitas provocações, pouco trabalho de casa, alguma inconsistência. Os dirigentes gregos falharam na batalha da opinião pública europeia. E não foi por falta de mediatismo, de holofotes, de curiosidade jornalística. Pelo contrário. O que faltou foi capacidade de demonstração do mérito das suas alternativas à política europeia. Como lembra Timothy Garton Ash, o doente grego fingiu seguir o tratamento prescrito pela Alemanha e pelo FMI, mas não o fez. Já não bastavam os oligarcas e as dívidas contraídas por governos clientelistas, o que se seguiu afundou ainda mais o país. A tragédia grega é brutal. Perdeu-se um quarto da riqueza produzida, a insustentabilidade da dívida é de uma evidência cruel, quase um em cada dois jovens está desempregado, a fuga de capitais é imparável, a taxa de suicídios aumentou 35% em quatro anos... Não admira que a revolta seja tão grande. A Grécia contra todos. Alguma simpatia não têm resultado em solidariedade. Regras são regras. Quando a Grécia procura alívio e dinheiro, propõem-lhe mais cortes para ter dinheiro e pagar. Quando se empresta dinheiro conta-se ser ressarcido nos prazos combinados. Só a vontade política pode dar sentido e flexibilidade à negociação implacável dos credores. A política hesita, pondera, espera, aguarda melhores dias, cede habitualmente ao peso da contabilidade e da finança. Política como finança por outros meios. Política sem memória, ignorante da História. Política pouco geopolítica. A China já domina o porto do Pireu, porta da Europa, a tal que os credores quiseram tanto vender. A Rússia espreita uma aliança tirando partido de proximidades culturais e religiosas… 


Jogo de teimosos, Europa e Grécia empenham-se pouco num compromisso. Gastam mais energias a fazer cenários de desintegração. Braço de ferro ou corda esticada, todas as metáforas mostram bem que para se esticar a corda ou se testar a força são precisos dois teimosos. Que é como quem diz, há duas partes a testar a resistência. Ninguém quer perder. Não há saída boa para a Grécia. Nem a saída da Grécia é boa para a União Europeia. Todos sabem isso. Salvar a Grécia, como diz Garton Ash, faz bem à Europa. Quererão os 27 salvar a Europa? Quererá a Grécia ser salva, salvar-se? É grande a tentação do abismo.

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