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António José Teixeira

Política que embala os números – ou será o contrário?

Vivemos no paradoxo dos números. Passam por ser a medida certa do mundo, o argumento final para justificar um sentido, a contabilidade imprescindível e, no entanto, quantas vezes são a imagem mais enganadora. Não é que o número não nos ajude a precisar quantidades, a ancorar referências, mas fazer deles a primeira e última razão das nossas opções é muito pouco rigoroso, seja porque os números são manipuláveis, com mais ou menos criatividade, seja porque há números de várias qualidades: positivos, negativos, relativos, irracionais, decimais, romanos, primos, naturais, complexos, atómicos até.  

Os números são muitas vezes enganadores. São a desculpa da política, a razão dos dissimulados, dos que moldam a política como se fosse mera gestão contabilística. Não faltam exemplos, sobretudo em tempo de campanha eleitoral. Podem ser números do desemprego, maiores ou menores do que der jeito, torturados  ou mesmo negados, por mais aparente que já de si seja a taxa de tradução da realidade. Podem ser subsídios de 500 euros a atribuir a desempregados até ao final do ano, que farão diminuir o desemprego. Podem ser números de grevistas ou paralisações. Podem ser milhões para fazerem baixar nos próximos meses carências cirúrgicas. Podem ser alguns milhares de novas isenções de propinas. Podem ser aumentos de impostos, que afinal não foram aumentos. Números transformados em mitos. Números ilusionistas, precários, que espremidos são outra coisa. Os números não têm culpa do tratamento que lhes damos. Nem nos permitem comparações de grandezas incomparáveis. Défices públicos iguais, em percentagem do PIB, traduzem muitas vezes realidades diferentes, resultam de critérios ou perímetros diferentes. Um curso superior de 36 cadeiras pode ser feito com apenas quatro. E mesmo quando se volta atrás, ainda assim pode haver excepções. Há números que prescrevem e números que não prescrevem... 


Os números são demasiadas vezes a cortina de fumo da política. Não que a política deva prescindir dos números ou que deva isentar-se de rigor, por mais contingente ou provisório que seja. O problema é quando o número serve apenas a propaganda. Afinal, não era bem assim, só era até certo ponto ou deixou de ser rapidamente. O número quer fazer-se passar como a definitiva tradução da política, a ciência da política, o caminho único, o silogismo perfeito. A política como o inexorável resultado da contabilidade. O fim da História. 


No recente 10 de Junho, o Presidente Cavaco Silva alicerçou o futuro político de Portugal nos números. O economista, que teve sempre um certo nojo da política, acredita que duas pessoas com as mesmas premissas chegarão à mesma conclusão. Continua a acreditar nisso por mais que os economistas errem as suas previsões. E nem por isso as suas desilusões políticas o impediram de estar na primeira linha dos destinos do País há mais de 20 anos. Perto de saír de cena, colocou-nos quatro grandes objectivos que, a serem cumpridos, nos garantem toda a confiança no futuro, «independentemente de quem governe». Os objectivos passarão pelas contas do Estado, da dívida pública, das contas externas e da dívida ao estrangeiro, as contas dos impostos... Os objectivos são contas, números. 


Eu sei que o número foi considerado pelos chineses como a chave da harmonia, da conformidade do império com as leis celestes. Que houve até números de ouro, também eles chave das proporções dos seres vivos. Deixámos aos números grandes elaborações e elucubrações simbólicas. Em qualquer caso, os números são fundamentais, merecem respeito e não devem ser torcidos pela conjuntura e a oportunidade. Nem por isso deixam de ser questionáveis. Devem ser instrumentos de rigor, mas não são fins em si mesmos. Os objetivos de uma comunidade dirigem-se para áreas específicas da vida, da segurança e do conhecimento. Devem situar-se à frente dos números e não dissimular-se atrás dos números.  

A política contemporânea está refém de números que não controla. Segue em permanência atrás do prejuízo, prisioneira de notações, fundos e predadores de diversa ordem. Nunca nos confrontámos com tantos números e nunca foi tão grande a incerteza sobre o presente. Maiores só mesmo os números de teatro e de circo… 


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