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António José Teixeira

As sondagens não erram

Há muito que nos queixamos das sondagens. Há muito que se diz que erram. Por não acertarem nos resultados, passe a redundância. Ou não. As sondagens não erram. As sondagens são por natureza limitadas, contingentes, circunstanciais. Empregue o rigor dos métodos estatísticos, bem calibrada a representatividade da amostra, não há razão para pensar em conspirações das empresas de sondagens. O grande problema que teimamos em desvalorizar é que os sondados eleitores estão cada vez mais insondáveis. A culpa não é das sondagens. São os eleitores que não se confessam.

Há sondagens com 20% de indecisos, outras com 30%. Há taxas de resposta às sondagens que não chegam aos 60%. A abstenção efetiva nas últimas legislativas ultrapassou os 40%. Tudo ponderado percebe-se bem que os resultados e as projeções das sondagens estão longe de ler o que vai na cabeça dos eleitores, mesmo admitindo que os que falam, falam verdade. E não falam. As muitas dúvidas e indecisões tornam os resultados mais imprevisíveis. Quem sabe se não haverá uma maioria absoluta? Não a excluiria. Sei que os responsáveis pelas sondagens e aqueles que as publicam não gostam de as desvalorizar. Mas talvez seja prudente que as relativizemos cada vez mais. Para que não voltemos a falar de falhanço e a mostrar vergonha quando olhamos para trás. A culpa não é das sondagens.

Há muito que nos queixamos também das campanhas eleitorais. Exigimos que nos digam ao que vêm. Esperamos informação, clareza, debate de ideias, balanços e perspetivas, melhoria das condições de vida, justiça, segurança, menos impostos, esperança, futuro. Exigimos e esperamos. Esperamos e exigimos. O de sempre. As campanhas são feitas de propaganda, de momentos de exposição para as câmaras verem. Muita dificuldade em lidar com a verdade, mais esperteza do que inteligência, mais habilidade do que responsabilidade. Muitos silêncios e omissões. Muita desfaçatez. O habitual. Talvez agora mais gente a intoxicar as redes… Nem por isso nos podemos queixar de que não informação suficiente para fazermos escolhas. Mesmo as omissões e as contradições nos ajudam a decidir. Além do sound bite do dia, se quisermos, há informação bastante para formar opinião. Outros fatores, além do verbo, influenciam as nossas atitudes: empatia, confiança, ou falta delas, ceticismo, convicção, coração tantas vezes maior do que a razão. E memória, pressupostamente. Por tudo isto, a campanha em que vivemos não é nem mais nem menos esclarecedora do que tantas outras.

Hoje, há uma escolha fundamental: continuar pelo caminho percorrido nos últimos anos ou mudar de rumo. Satisfação com os resultados ou nova atitude? Parece simples. Não será. Dizia ontem o embaixador Francisco Seixas da Costa que «parte do eleitorado pode estar indeciso entre o diabo que conhece e o voto no desconhecido». Mudar não é fácil, sobretudo quando houve tanto sobressalto e tanta frustrada promessa. A continuarmos pelo mesmo caminho já saberemos com o que contamos…

Os próximos dias tenderão a bipolarizar mais as escolhas. Vale a pena indagar quem merece o nosso voto. Perceber quem defende o nosso interesse individual e coletivo. Pese embora o esforço de dissimulação, sabemos o suficiente sobre o que foi e será o futuro da escola, da justiça, da saúde, das contas públicas ou da segurança social. Só falta não ter medo de decidir.

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