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António José Teixeira

Entre a maioria negativa e a maioria política

Muitos não terão alcançado a importância das declarações de Jerónimo de Sousa, ontem após uma reunião entre o PS e o PCP. O líder do PCP foi claro e, desta vez, não colocou condições para viabilizar um governo socialista. Não foi pura retórica, como acontece tantas vezes, foi uma escolha. "O PS só não será governo se não quiser. Rejeitaremos qualquer moção de rejeição vinda do PSD ou do CDS." Isto é novo na atitude dos comunistas.

E tem explicação. O PCP não gostou do crescimento e ultrapassagem pela esquerda do Bloco. Percebeu que, além dos méritos de Catarina Martins e Mariana Mortágua, o BE ganhou votos pela abertura (mesmo que aparente) a um compromisso com o PS. A verdade é que a ideia era do Livre/Tempo de Avançar, mas foi o Bloco que a soube e pôde cavalgar. Acresce que o Presidente da República e o PSD/CDS estão empenhados em seduzir o PS para tornar possível a continuidade da coligação no poder. Cavaco Silva tem um único objectivo: impedir que a maioria aritmética de esquerda tenha qualquer viabilidade política, seja qual for a configuração que assuma.


A posição do PCP valoriza o papel do PS no espectro político. E teve já o condão de deixar a pensar o BE, que adiou o encontro com o PS para depois da reunião entre PS, PSD e CDS. É verdade que António Costa disse que não se reconhecia em maiorias negativas. Mas o que o PCP e porventura o BE lhe dizem é que poderão ser uma maioria política. Pode continuar a ser pouco crível ou pouco credível. Mas as tais "convergências possíveis", de que falava Costa, podem permitir um governo minoritário do PS de geometria política variável. É isto é relevante quando se olha para o futuro próximo. A ideia de que há uma espécie de direito divino a governar sem que exista sustentação parlamentar suficiente é delirante...


Há duas questões que importa esclarecer. A primeira é que não deve rejeitar-se à partida uma solução governativa encabeçada pelo PS. Não é porque tenham coerência os programas do PS, BE e PCP. Não têm. Não é porque se vislumbre um acordo parlamentar entre os 3 partidos. Mas por uma questão de realismo. Podemos ser confrontados com uma realidade que não deixa alternativa: um governo do PS pode ser o único que vingue na Assembleia da República, mesmo que seja de duração muito duvidosa. A verosimilhança deste cenário é o bastante para fazer pensar a coligação à direita. Ou se aproxima das posições do PSD ou pode ver gorar-se a possibilidade de continuar a ser governo. Costa não quer ir para o governo de Passos e Portas. Mas, para o viabilizar, quererá tornar visível que há uma viragem bastante na governação.

Em qualquer caso, dificilmente o Presidente recuará na intenção de dar posse a um governo da coligação. Se Passos/Portas forem rejeitados, só Costa pode ser chamado a idêntico exercício. E aí até pode haver governo. Porém, é pouco provável. O que é certo é que o PS, o grande derrotado nestas eleições, se pode tornar o centro de gravidade da política portuguesa. Ser partido charneira tem muitos riscos. Um deles deixou marcas nestas eleições: a ambivalência. Em que campo se quer colocar o PS? No programa liberal de Mário Centeno ou no discurso à esquerda de António Costa? Mas a charneira tem também oportunidades. É um terreno político central, se houver poder de iniciativa e capacidade de liderar a mudança.


Cavaco Silva convenceu-se de que tem poderes para colocar baias ao futuro governo. Ele que não é responsável politicamente pelo governo. Ele que tem poderes diminuídos e que precisará do PS para que os seus últimos meses no poder não sejam um sobressalto para si e para o país. Tenho dúvidas sobre se o PS se pode dar ao luxo de esticar muito a corda com a coligação. Tenho dúvidas sobre se a cumplicidade à esquerda não lhe trará mais prejuízos do que benefícios. A única certeza é que, de facto, apesar da derrota de domingo, o PS se tornou o centro de gravidade da política portuguesa.

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