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António José Teixeira

A charneira pode ser lugar de sacrifício

Impasse, dizem. Impasse? Pouco importa o canal, a palavra solta-se e repete-se sem pedir licença. Impasse na constituição do novo governo. Socorro-me do Houaiss para ver se me escapa alguma coisa. Situação aparentemente sem solução favorável, dificuldade insolúvel, beco sem saída... O substantivo parece estar a tornar-se adjetivo. Num primeiro olhar, o impasse será fruto da demora. Mas a demora tem pouco, ou nada, de impasse. Os timings para audição dos partidos e a indigitação de um primeiro-ministro seguem como é hábito. São longos, são. Toda a gente o sabe há muitos anos, muitos protestam, mas ninguém os muda. Por aqui, não há impasse. Só mesmo lentidão regimental. A tão criticada Grécia faz eleições e constitui governos em menos de metade do tempo...

Mas o impasse que anda na boca de tantos jornalistas terá mais a ver com perceções de futuro. A solução governativa não será favorável, ou não haverá boa solução, mais tarde ou mais cedo virão eleições, a direita não se aguenta e a esquerda irá implodir, o tal beco sem saída. A verdade é que ainda não chegámos lá. O Presidente da República dirá de sua justiça e a marcha constitucional se cumprirá. Ainda é cedo para falar de impasse, mesmo tendo em conta a dificuldade do cenário.

Tudo indica que Cavaco Silva será fiel à tal tradição e chamará Passos Coelho a formar governo. Já sabe que o governo não passará no crivo parlamentar, mas deixará o ónus à Assembleia da República na expectativa de divisão das hostes socialistas. O PS é o kingmaker. Passa por ele a solução, seja ou não seja governo. Para quem perdeu as eleições até parece aliciante. Não será. Mesmo que venha a ser governo. O PS está na encruzilhada mais difícil da sua história. Alguns argumentos:

- o PS afirmou-se como partido de poder, não apenas contra a direita, mas sobretudo contra os partidos à sua esquerda. No Verão quente de 75, nas primeiras eleições e em quase todas as outras. As exceções são autárquicas e presidenciais;

- as grandes opções estratégicas pós-25 de Abril colocaram quase sempre PS e PSD como os partidos mais próximos;

- o último desaire de um governo socialista uniu a direita e os partidos à esquerda do PSD;

- o pedido de resgate de 2011 uniu o PS com a direita. Por pouco tempo. O governo de direita nunca quis verdadeiramente qualquer compromisso. E o Presidente tardou a interessar-se. PSD e CDS afirmaram-se contra a herança socialista, lembrada todos os dias durante mais de quatro anos. Ainda rendeu nas eleições deste mês;

- apesar do tratado orçamental, também aprovado pelo PS, o discurso socialista dos últimos anos fez-se contra o governo. António José Seguro recusou um entendimento, patrocinado por Cavaco Silva. E o tom de contestação subiria com António Costa;

- mesmo longe da barricada do PCP e do BE, o PS assumiu sempre um discurso de contestação das opções do governo. Ninguém compreenderá, salvo os apoiantes da coligação, que o PS passe agora a desdizer-se e a transigir com a antiga maioria;

- nas condições habituais, o PS seria oposição, ainda assim fiel da balança parlamentar. O que não é habitual, mas excecional, histórico mesmo, é que o PCP se tenha disponibilizado a viabilizar um governo PS sem condições de partida. Perante este quadro, mesmo com todas as clivagens acumuladas ao longo de mais de 40 anos, seria incompreensível que António Costa ignorasse a alternativa que lhe foi colocada;

- os socialistas que queriam acertar contas com o derrotado António Costa torcem o nariz à alternativa de esquerda, os moderados, a quem nunca passou pela cabeça partilharem o poder com bloquistas e comunistas, desenterraram as memórias da Alameda, os mais afoitos, ainda assim, receiam capitular ao abraço da esquerda. Não abunda convicção de esquerda no PS, tal como não se vislumbra qualquer vontade de entendimento ou tolerância com a direita;

- faça o que fizer António Costa, a divisão socialista paira no horizonte. Não sei se poderia ser de outra maneira. Os que sonham com a grande coligação, ao modo alemão, sabem que por cá se matou logo a seguir ao resgate;

- que se pode pedir ao líder do PS? Que se renegue e estenda a passadeira à direita que combateu? Que ignore os apelos da esquerda na primeira e única vez, na nossa história democrática, que esteve disponível? Que ignore a possibilidade de construir um governo com apoio maioritário? Que não corra o risco democrático de tentar uma alternativa? Não há boa saída. As diferenças na esquerda podem ser maiores do que no habitual 'arco governativo';

- em qualquer caso, Costa tem de mostrar ao País os termos exactos do compromisso a que chegar. Na certeza de que, se o seu governo vingar, contará com a oposição mais aguerrida em muitos anos. Também no seu próprio partido. Que PS sairá de uma experiência como esta? Ninguém sabe. Mas muitos apostam que quem terá mais a ganhar serão os partidos à sua direita, seguidos dos partidos à sua esquerda. A charneira pode ser um lugar de sacrifício. Tempos de alto risco. Até porque PSD e CDS são os grandes intérpretes do poder destes tempos. A esquerda vai contracorrente...

Dito isto, importa repetir que a histeria continuada do direito consuetudinário a governar é ridícula. O direito a governar ganha-se e perde-se no Parlamento. Tão ridícula como a ideia de que só alguns podem governar.

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