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António José Teixeira

Cavaco, o inimigo do Bloco Central

Em 1983, ainda antes de Cavaco Silva fazer a rodagem do seu carro rumo à Figueira da Foz, Portugal tinha umas finanças depauperadas e foi obrigado a recorrer ao FMI. Tinha ficado para trás um governo AD (PSD+CDS+PPM) e as eleições desse ano ditaram uma vitória do PS. As dificuldades ao tempo e a receita da austeridade aconselhavam um governo forte. Mário Soares percebeu isso e co-responsabilizou o PSD naquele que ficou conhecido como o governo do Bloco Central. O único que houve até hoje. Mota Pinto era o líder de um PSD minado, dividido. Não passou muito tempo até à sua resignação e súbita morte de ataque cardíaco. Rui Machete levou o partido a congresso e foi aí que Cavaco Silva surpreendeu João Salgueiro e lhe arrebatou a vitória que parecia certa.

Cavaco surgiu determinado a pôr fim ao Bloco Central e a provocar a antecipação de eleições. E assim foi. O quadro económico e social era muito complexo, estava longe de estabilizado, a taxa de desemprego ia além dos 10%, os salários reais tinham caído 16%, proliferavam situações de salários em atraso. É verdade que o défice da balança de transações correntes tinha sido reduzido significativamente, havendo até um excedente. Mas a situação estava longe de estabilizada. Tudo aconselharia à manutenção da coligação PS-PSD, mas não foi isso que ditou o instinto de poder de Cavaco Silva. Política, afinal. Cavaco percebeu a oportunidade e cavalgou-a, deixando boquiaberto Soares, que chegou a atirar-lhe um dia na Rua da Emenda: "Mas quem é o senhor?!" Obviamente, foi o poder que moveu Cavaco Silva.


O resto é bem conhecido, Cavaco ganharia as eleições de 85 e instalou-se em São Bento 10 anos. Ficou para a história como o homem que matou o Bloco Central. Os tempos eram outros, mas o homem é o mesmo. Nunca se entendeu com outros partidos, particularmente com o PS. Ainda chegou a ter alguma consideração por José Sócrates, admirou-lhe a determinação, mas passou-lhe depressa. Talvez por culpa de Sócrates...


Cavaco Silva fez um governo minoritário e admitiria outros, já Presidente. A verdade é que houve poucos artífices de maiorias absolutas. O mais recente pedido de resgate financeiro coube a Sócrates e foi concertado com PSD e CDS, antes de eleições antecipadas. A maioria absoluta, que se formou depois, foi suficiente para impor um programa de austeridade. E fez questão de hostilizar o PS sempre que pôde, mesmo quando parecia que lhe pedia a mão. Cavaco começou por não se preocupar com um compromisso alargado ao PS, apesar de terem sido três os partidos que se responsabilizaram pelo resgate. Só a meio da legislatura, após uma ameaça de ruptura da coligação, quis prender os socialistas à grelha da troika. Seria um grande bloco central. Assim, até poderia avançar mais cedo para eleições. O PS estaria inibido de grandes dissonâncias... E seria um modo superior de matar as veleidades socialistas. Cavaco chegou tarde. E agora, com a mesma coligação já sem maioria, volta a chegar tarde. No seu entender, e de muitos que governam o resto da Europa, só há um caminho à nossa frente. Nada mais contrário ao pensamento e acção política dos socialistas e demais esquerda na última legislatura.O que leva Cavaco a insistir em comprometer o PS com a direita é tão só a vontade de o neutralizar. Poder, afinal. Política mesmo. Cavaco matou o Bloco Central em 85, quando o país vivia nas amarras do FMI. Nestas eleições não lhe passou pela cabeça que a esquerda se unisse. Não era essa a tradição. Se ela se cumprisse, o PS não teria outro remédio senão ir tolerando a coligação à sua direita... Bem ou mal, porventura mal, o rio que separa PSD e PS nunca foi tão largo. Cavaco Silva e Passos Coelho não são inocentes neste caminho.

Política e poder. É disso que se trata. O resto é retórica. Não é António Costa que mata o Bloco Central, como Cavaco em 85. Uma impossibilidade desde então, apesar dos interesses e dos lugares. O líder do PS assume o poder de uma maioria de esquerda. E esse é um poder novo com que Cavaco não contava. Bem pode pregar contra comunistas e bloquistas... Poder e política, como em 85. E como é costume em democracia. Tão só, mesmo que venha a ser mal sucedido.

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