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Bernardo Ferrão

O “amigo” de Costa e o pin na lapela do Bloco de Esquerda

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor de Informação

As dúvidas sobre o papel/atuação do “melhor amigo” de António Costa enquanto negociador do Estado não são novas. Mas o que agora surpreende (ou talvez não!) é a reação do primeiro-ministro. É inacreditável que Costa considere que estava tudo bem na relação muito pouco clara entre o Estado e Lacerda Machado. Uma relação graciosa e sem enquadramento legal, que nada tem de “fait-divers”.

É estranho que se ache estranho que tenha de haver um contrato. É óbvio que tem de existir – Costa deu a entender que esse contrato já existia quando ainda nem sequer foi assinado -, e é também óbvio que os valores envolvidos devem ser públicos. Afinal quanto é que vai ganhar o “melhor amigo” de Costa? Qual o objeto(s) do acordo? Vai negociar o quê? E com quem? A falta de transparência e o conflito de interesses são indisfarçáveis, e o primeiro-ministro já devia saber que misturar amigos e negócios nunca dá bom resultado.

Segundo fonte próxima do processo, citada no DN, Lacerda Machado ganha um “valor simbólico” do Governo. Mas se é simbólico porque é que Costa veio dizer que a contratação do amigo ia ser “mais cara para o Estado” e que era “um dinheiro que podia não ser gasto”? Se é simbólico não há razões para que o PM se aflija com os montantes da fatura, certo? Mas há outra dúvida que se coloca: porque é que o valor pago pelo Governo há de ser simbólico?

Se a reação de São Bento levanta várias questões e exige esclarecimentos cabais, a atitude do Bloco de Esquerda e do PCP perante tudo isto é igualmente reveladora. Pergunto-me o que diriam as esquerdas se em vez de Costa o caso fosse com o governo de Passos Coelho. Aliás, nem é preciso puxar muito pela imaginação, basta socorrermo-nos da memória.

Passos Coelho também teve um negociador no seu governo. António Borges tinha a pasta das privatizações, mas a diferença é que na altura – bem sei que Passos Coelho também não revelou logo os pormenores desse contrato - soubemos quanto ganhava, e como era o seu contrato (âmbito e duração). Ainda assim, nesses tempos, o BE fez dele uma espécie de inimigo número 1 do país. Francisco Louçã, então líder bloquista, referia-se ao consultor como "ministro extranumerário" e dizia que “se transformou numa espécie de gato escondido com o rabo de fora”.

Pois, mas e o que diz agora o mesmo Bloco sobre o negociador da “geringonça”? Primeiro não disse nada, preferiu o silêncio – tal como o PCP que, 48 horas depois, lembrou-se que tinha de pedir, e não exigir, “todos os esclarecimentos”. Depois, num “jeito manso”, o BE veio falar em transparência. Que cordatos estão agora os bloquistas (e os comunistas) com o negociador e com os negócios do melhor amigo de Costa.

Estranho? Talvez não. Se Francisco Louçã já usa gravata, não tarda veremos Catarina Martins com um pin na lapela. Mas no seu caso, em vez da bandeira de Portugal, o pin terá a cara de António Costa, o “melhor amigo” do negociador do Estado socialista.

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