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Joaquim Franco

O tempo de Bergoglio

No segundo aniversário do Pontificado de Francisco, salientam-se algumas evidências sobre o papel e a responsabilidade de um Papa. Embora sem grandes novidades - o papa Bergoglio mantém a agenda nas intervenções que faz, de forma recorrente fixa o papel das periferias e a prioridade da pessoa, antes da sua condição de ser... é um pastor na «sua» paróquia que tem agora o tamanho do mundo - a longa entrevista dada à televisão mexicana Televisa deve ficar registada para memória futura. 

O "bispo de Roma", como se apresentou há dois anos, que veio "quase do fim do mundo", confessa que teve dificuldade em vestir a pele de um Papa, mas já se afeiçoou - "não me desgosta ser Papa" -, usa o telefone e as facilidades informais da residência na Casa de Santa Marta para atenuar o isolamento.

Bergoglio acredita que vai ser Papa por pouco tempo. Já o tinha insinuado e fez questão de o reafirmar agora de uma forma - na forma, que pressupõe nele um conteúdo de experiência e de vida, está "segredo" da comunicação em Bergoglio - que surpreendeu mais uma vez o mundo mediático. 

É uma "sensação", diz: "(...) vai ser breve [pontificado], quatro ou cinco anos, não sei, ou dois ou três, dois já passaram, é uma sensação um pouco vaga que tenho, a de que o Senhor me escolheu para uma missão breve". Muitas vezes tem enaltecido a decisão de Bento XVI, que resignou. O predecessor abriu "uma porta institucional" com "muito mérito para os papas eméritos", acrescenta, e Francisco mantém essa "possibilidade em aberto". Não é a primeira vez que Francisco aborda a hipótese. Lembrando que ser Papa "é uma graça especial", o argentino fala numa "missão", que entende ser "breve". Talvez seja importante ler as entrelinhas... 

O tempo de Bergoglio não se mede pelo relógio - kronos -, mas pela oportunidade - kayros. "Se sentir que tenho de fazer alguma coisa, faço e corro o risco". Até por isso, confessa que não lhe agrada a ideia de fixar um limite de idade para o exercício do papado, como acontece com os cardeais que aos 80 anos deixam de ter acesso ao Conclave eleitoral, ou com os bispos que aos 75 são convidados a renunciar. Não seria de resto coerente para alguém que tem insistido na dignidade da geração da memória e acusado a sociedade ocidental de descartar os velhos.

Uma das maneiras de começar a contagem do tempo de Bergoglio é pela reflexão feita nas reuniões dos cardeais - Congregações Gerais - antes da sua eleição. A necessidade de transparência e unidade na Igreja - entre os "extremistas ultratradicionalistas" e os "ultraprogressistas" - é referida na ata dos trabalhos.

O programa de Francisco, já aqui analisado, é uma consequência. Tem o estilo, a forma e a alma do arcebispo de Buenos Aires, para ganhar criatividade e estar aberto à imprevisibilidade, mas é um difícil programa definido pelas circunstâncias de uma Igreja e de um mundo em crise, que exige um processo de liderança firme e corajoso, uma abertura inédita - um novo aggiornamento - que não fragilize os alicerces da fé cristã e leve o evangelho ao mundo, sem o escândalo do proselitismo, mas pela essência da vida. 

Não havendo surpresas pela inevitabilidade da nossa finitude, será possível converter o tempo da oportunidade de Bergoglio em tempo cronológico? A arrumação das finanças promovendo a transparência, o combate aos jogos palacianos de poder, a tolerância zero nos casos de pedofilia, a abertura ao mundo das periferias - sejam existenciais ou sociais, nos bairros pobres ou nas clausuras urbanas da modernidade -, a um construtivo pragmatismo diplomático - com o drama dos cristãos no Médio Oriente -, ao diálogo entre religiões, assim como o sínodo sobre a família - Francisco tem insistido na misericórdia, no que pode interpretar-se como um sinal para o drama dos «divorciados recasados» e no acolhimento a outras experiências de família - e a posterior exortação, a iniciativa de um simbólico ano jubilar da Misericórdia - de dezembro de 2015 a dezembro de 2016 -, o desejo já manifestado de visitar em 2017 os santuários marianos de Aparecida, no Brasil, e Fátima, em Portugal, ou a necessidade de assegurar, com nomeações cardinalícias, um colégio eleitoral que na escolha do sucessor prossiga a dinâmica de desclericalização, descentralização e diversidade, podem dar algumas pistas. 

Se o quando depende mais do quanto e do devo e menos do quero ou do posso, o papa Bergoglio está a admitir, em março de 2015, que tem uma perspetiva otimista quanto ao trabalho feito e por fazer. Mas a missão é maior que o missionário e há um tempo para tudo. Francisco preza o jesuítico princípio do discernimento, de uma espiritualidade metódica e consequente. Como disse o superior-geral dos jesuítas, padre Adolfo Nicolas, a poucos dias do segundo aniversário do pontificado, "ele [Papa Francisco] tem sido um bom jesuíta"*.


* Reportagem Especial SIC, 11 março 2015


Sugestões de Leitura: O meu Deus é um Deus ferido (Paulinas) de Tomás Halík; Os Ricos (Temas e Debates) de John Kampfner; Via-Sacra para crentes e não-crentes (Paulus), de José Luís Nunes Martins, Paulo Pereira da Silva e Francisco Gomes.


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