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Joaquim Franco

Para lá das "aparições"

Todos os maios trazem contas. Multidão, pouca gente, mais luz, menos lenço, a devoção subsiste nas mediáticas concentrações, legitima-se no tempo, para lá das aparições televisivas, das narrativas iniciais de um "maravilhoso sobrenatural" (1) e dos interesses económicos instalados numa tão grande e cíclica movimentação de pessoas. 

Joaquim Franco

Joaquim Franco

Cem anos depois, "a tensão entre a legitimidade e não-legitimidade no campo religioso esbateu-se, a fronteira do religioso legítimo e não legítimo deixou de ter relevância" (2), entende o sociólogo Policarpo Lopes. Fátima adquiriu uma certa "consciência coletiva" e plural. Permanece na constante reinterpretação da vida a partir da devoção, e na reinterpretação da própria devoção a partir da vida. Recria-se na diversidade, nos mistérios de cada individuo, com mais ou menos fé ou sem saber porque vai. Em cada motivo transformado em vela, acende-se uma nova luz na história de um fenómeno que se conta com estórias concretas. 

Se o peregrino procura uma “transformação interior”, o turista “vive uma procura de diversão, de conhecimento, mas sem perseguir a significação existencial do lugar”. O turista, “mobilizado pela sede de «olhar» e de «ver», de «conhecer», torna-se peregrino em contacto com o espaço sagrado e com a vida da multidão em exuberância e exaltação coletiva” (3).

Este processo de «legitimação» passa também pela simbiose entre o natural proselitismo da devoção e o interesse mediático pela concentração popular. Vale a pena ler a opinião de dezenas de jornalistas e especialistas publicada no último número da revista Fátima XXI, editada pelo Santuário de Fátima.

Milhões de pessoas cumprem todos os anos os caminhos de Fátima no itinerário cultural e religioso português. A maioria, entre excursões turísticas e visitantes ocasionais, uns mais devotos que outros ou apenas curiosos, não vai sequer nas enchentes de Maio e Outubro. 

Estudo sobre o perfil do visitante de Fátima , da autoria de Maria da Graça Poças (4), rev ela que apenas 1,6% dos visitantes de Fátima escolhe os dias das celebrações aniversárias. Quase 30% deslocam-se à Cova da Iria nas férias, uma percentagem semelhante à dos visitantes que se consideram "leigos não praticantes", havendo 2,8% dos visitantes que são ateus ou professem outra religião, cerca de 150 mil por ano.
 45,8% dizem que vão para rezar, 22,2% para cumprir promessas e 15,3% por tradição. 
A maioria dos inquiridos no estudo, entre peregrinos e turistas, são mulheres. Entre os "pontos fortes" de Fátima como "área recetora", é destacada a área geográfica - centro do país, com fácil acessibilidade -, a grande capacidade hoteleira e de restauração com preços acessíveis, a diversidade na oferta turística da região ou a notoriedade internacional do Santuário de Fátima - a marca. 

Nos aspetos religiosos, o Santuário é atraente pela devoção mariana, pela simplicidade das expressões populares de fé, a persistência e durabilidade do "magnetismo espiritual", preservando uma certa sacralidade do espaço religioso, a sua ecologia específica e área envolvente. Fátima é um "espaço social e histórico condensado em várias plataformas de significação" (5). 

A devoção não se mede nos metros ocupados do recinto. Nem é apenas o local. É toda uma jornada, turística ou de fé. Partida, caminhos e chegada. Ganha forma no rosto de cada visitante ou peregrino. No ombro a ombro, nas dores e alegrias, lágrimas e sorrisos. De pé inchado, estandarte ou aristocrática indumentária, mas também nos silêncios cúmplices de uma presença. A «procura» da experiência religiosa e turística da peregrinação corresponde a um "tipo de sagrado móbil, flexível, excecional, ocasional e efémero, regulado pelo registo estético e místico e profundamente imbuído da emoção" (6), própria do homem contemporâneo marcado pelos ritmos efémeros. 

Vão à «mãe», dizem, como quem procura um ventre de acolhimento. São eles o primeiro «segredo» de Fátima. E o mistério maior, que não é segredo, reside nas motivações de cada peregrino. 

Embora residual, desenquadrada da teologia cristã, a experiência do «sacrifício» físico e resignado, um exotismo penitencial que se manifesta espontânea e voluntariamente, é ainda um postal da devoção e, nesta dimensão, há uma reflexão por fazer parte da instituição Igreja católica, reconhecendo um século de imprecisões e incertezas que a crítica histórica se encarrega de esmiuçar.

Fátima é o espetáculo grande das fragilidades e das fortalezas. Homens e mulheres em busca. Peregrinar, na vida ou a um local - "lugar alto" das procuras de sentido, nas palavras do sociólogo -, é contingência humana. A beleza maior. O resto é construção nos enquadramentos da fé, potenciando magnéticos confortos ou resilientes esperanças.

(1) Lopes, P. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 163). Lisboa: Rei dos Livros
(2) Lopes, P. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 168). Lisboa: Rei dos Livros
(3) Lopes, P. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 160). Lisboa: Rei dos Livros
(4) Santos, M. (2008). Estudo sobre o perfil do visitante de Fátima. Leiria/Lisboa: Centro de Investigação, Identidade(s) e Diversidade(s)/Edições Afrontamento
(5) Lopes, P. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 157). Lisboa: Rei dos Livros
(6) Lopes, P. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 156). Lisboa: Rei dos Livros

Sugestões de leitura:  O Meu Deus é um Deus ferido  (Paulinas) de Thomas Halik;  A Sociedade do Cansaço (relógio d'Água) de Byung-Chul Han.

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