sicnot

Perfil

Luís Ferreira Lopes

Os "piu-pius" de Ana e desejos para 2016

Editor de Programas Especiais

Milhares de turistas nacionais e estrangeiros passaram a semana natalícia às compras e a passear pela Baixa de Lisboa. Enquanto não chega 2016, um ano de incerteza, tiram uma foto, no Rossio, com um "Pai Natal" bem disposto. Em vez de um presépio, encontram o "piu-piu" de Ana - uma comerciante alfacinha que faz negócio a vender um assobio em barro a que chama de "passarinho português".

Numa animada Lisboa que "entardece", ouve-se o som do "piu-piu" em pleno Rossio. É uma mini-flauta, em forma de pássaro rechonchudo que, com a ajuda de água, simula o cântico de uma ave. Ana não tem mãos a medir e a bancada está cheia destas figuras de todas as cores, em frente a uma das muitas casas de madeira na praça lisboeta. Diz que é "very typical"...

Ao lado, uma comerciante vende doces tradionais alentejanos com um sucesso invejável para um dia de Natal. Há sempre quem tenha um espacinho para mais um bolo, depois dos sonhos e das iguarias da consoada. Os sonhos de Ana são outros e é indiferente que os seus "piu-pius" pouco tenham a ver com o Natal:

- "Eu vendo o "passarinho" no Natal, Carnaval, Páscoa, no verão, é todo o ano!", afirma, entusiasmada com os pedidos de miúdos e graúdos. "- Isto é como o galo de Barcelos; temos é de ter produto para vender todo o ano porque há muitos turistas e Lisboa está na moda, está a ver?" Estou, claro... E pergunto-lhe: o que vê para 2016?

Ana vê um ano agitado para o comércio em Lisboa (e, dizem, também no Porto). Não sabe o que dará a política no país, mas sabe que vêm aí mais turistas e empresários por causa de uma "cimeira da net ou lá o que é". Respondo que trata-se da Web Summit. A jovem comerciante, com a sua voz rouca, dá o troco:

- "eu espero é que as pessoas gastem mais, acabem os cortes da austeridade e que eu venda mais "piu-pius". Sabe, o resto é conversa dos políticos".

Na semana de Natal, Ana viu o governo anunciar em directo, no Jornal da Noite, o aumento do salário mínimo nacional, já em janeiro, mesmo sem acordo do patronato e das centrais sindicais na concertação social. No dia seguinte, ouviu o presidente da República alertar (num encontro em Cascais com gestores portugueses que andam pelo mundo) para os perigos da "governação ideológica" - que, geralmente, diz Cavaco Silva, acaba mal, com faturas por pagar. Aliás, numa alusão à Grécia, o presidente frisou que, na zona euro, tudo se resolve com pragmatismo...

Ana não sabe se isto era recado para alguém, mas a verdade é que, passado um dia, na antevéspera de Natal, viu António Costa e os seus ministros apresentarem, de sorriso nos lábios, cumprimentos ao actual inquilino do palácio de Belém. Em direto na SIC Notícias, ouviu o primeiro-ministro manifestar satisfação por passar este Natal com Cavaco Silva e desejar-lhe felicidades no seu "regresso à vida em liberdade", depois de tantos anos em cargos públicos. E o presidente desejou "paz, concórdia e lealdade, com respeito pela separação de poderes".

Enquanto assobia no seu "piu-piu", para mostar como o garrido pássaro de barro canta, Ana pergunta:

- "Então, afinal, eles são amigos?! Olhe, eu sei que o presidente vai à vida dele em 2016, mas quem vier para o lugar dele, só espero que se dê bem com o governo porque, seja quem for o pássaro que esteja no poleiro, eles têm é de se entender para não assustarem a malta e para eu ter cá mais turistas a comprar mais passaritos, está a ver?"

No dia a seguir ao Natal, numa ronda rápida por Lisboa, em reportagem pelo centro da capital, reencontrei a simpática vendedora de "passarinhos de Portugal". E contei-lhe o que é suposto acontecer no novo ano:

- Os funcionários públicos vão receber o dinheiro dos cortes salariais (do período da troika) e vão trabalhar apenas 35 horas por semana, em vez de 40 horas.

- As pensões mais baixas vão aumentar e o salário mínimo nacional sobe 25 euros para 530 euros.

- A taxa de inflação e o preço dos combustíveis deverão manter-se a valores baixos, tal como a almofada social que tem sido a Euribor e as taxas historicamente baixas do BCE.

- A sobretaxa do IRS deverá diminuir, mas ainda não acaba.

- As pensões mais baixas (superiores a 628 euros) vão aumentar dois euros e os escalões do abono de família serão actualizados.

- Os empresários esperam por negociações para a descida da taxa social única e esperam, principalmente, pela aplicação dos fundos comunitários. Para já, 100 milhões de euros vão para pequenas e médias empresas, nos primeiros 100 dias deste governo.

- Para haver continuação da retoma, é preciso que a economia cresça no próximo ano, pelo menos, 1,5%, tal como terá acontecido em 2015. Para isso, as exportações deveriam aumentar na casa dos 5%, apesar da crise em Angola e do abrandamento na zona euro e China.

Contei a Ana que o Parlamento agora é talvez mais importante, no novo ano, para o seu negócio do que as casas de madeira no Rossio... Teremos de esperar pelas novidades do orçamento do Estado para 2016, mas o maior desafio político e económico do novo governo é a votação do orçamento para 2017, lá para novembro de 2016, porque o governo de António Costa depende da maioria de esquerda que o sustenta na Assembleia da República.

E acrescentei que, em 2016, os "trabalhos de Costa" são:

- aumentar a despesa social (salários e pensões);

- descer impostos (sobretaxa do IRS, IVA na restauração, IRC nas empresas);

- controlar o défice orçamental abaixo dos 3 por cento do PIB (caso contrário, em teoria, haverá multa de Bruxelas);

- tentar conter o aumento de importações (défice da balança comercial);

- travar a derrapagem da dívida pública, que é superior a 130 por cento do PIB.

- "Ana, é uma autêntica quadratura do círculo; ou seja, mais parece uma missão impossível, mas temos de ter esperança em dias melhores nesta altura de Ano Novo..."

- "Ó senhor jornalista, eu já percebi: o melhor é eu continuar a vender aqui o meu "piu-piu" porque, mesmo sendo à base de barro e metendo água, pelo menos dá para assobiar. Ah, e recebo cinco euros por cada um.

E não venham lá com impostos porque senão saio do Rossio e vou para outro lado montar a tenda. E agora, desculpe lá, mas tenho aqui muitos clientes para atender porque há muita gente a querer o passarinho português. Temos de vender o produto nacional, não é?"