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Perfil

Rodrigo Guedes de Carvalho

Visto de cima: Uma campanha é uma carta de amor

Ou seja, ridícula. Não tanto porque seja risível objecto, potencial de zombaria. Mas porque insignificante, de valor irrisório para o que se propõe ser.

Adormecidos há décadas pela letargia do hábito, já sabemos o que lá vem, assim que entra a quinzena que antecede a noite decisiva. Bandeiras ao vento, distribuição de panfletos que ninguém lê, contagem de cabeças na arruada (a minha é maior que a tua), contagem de cabeças no comício da noite, onde o líder, de mangas arregaçadas (porque é um de nós e anda na estrada) responde ao líder dos outros, que por sua vez tinha respondido a este.

Ainda há justiça à língua: assumem o cognome caravana, e que bem lhes fica. De terra em terra, saltimbancos da promessa, avisadores de perigos que os outros escondem na manga, nós é que é, os outros são mentirosos, sempre a olhar para o relógio, enjoados, coitados, de tanta carne assada, de tanto petisco da região que o potencial eleitor oferece (há que comer, há que comer, não vá o eleitor sentir-se ofendido), mais um copito de vinho, e outro, a perguntar ao assessor para onde vamos agora.

Afogueados, suados e cansados, querem os jornalistas mas não querem os jornalistas. Querem que filmemos esta impressiva multidão que os rodeia, mas não querem que desatemos a contar quantas camionetas encomendaram para ir buscar as almas e enfiar-lhes a bandeirinha na mão. Querem jornalistas mas não querem mesmo. Querem o nosso microfone para mandar mais um recado, responder ao outro e ao aqueloutro que tinha insinuado não sei o quê. Mas não querem a nossa pergunta, aquela que pede que explique lá melhor aquela conta que fez ontem que parece que não bate certo, aí o líder avança, não tem tempo para nós, o assessor faz-nos sinal de desagrado, que parvoíce esta de andar a pedir esclarecimentos sobre coisas que ficaram no ar, contas que pairam, suspensas pela levíssima, imperceptível brisa de uma promessa, mas não, promessas não fazemos, quando muito objectivos, compromissos, olhe, muita, muita vontade de trabalhar já não é nada mau.

E é isto. E não é de hoje. E assim será. A campanha, tão irmã da carta de amor. Onde fingimos sempre um bocadinho, mesmo que nos achemos um nadinha ridículos. Mas pode ser que pegue, e ela aceite votar em mim no domingo. Perdão, sair comigo no domingo.

Sobre Rodrigo Guedes de Carvalho

Rodrigo é uma das caras mais conhecidas da televisão portuguesa. Semana sim, semana não "entra" pela casa dos portugueses com o Jornal da Noite da SIC despedindo-se no final de cada emissão com a célebre frase " Todos os dias, às 20h, o país e o mundo".

Para além de apresentador ocupa o cargo de subdirector de Informação e tem uma crónica semanal na TV Mais.

Licenciado em Comunicação Social, pela Universidade Nova de Lisboa estreou-se como repórter na RTP, onde também apresentou o Domingo Desportivo e o 24 Horas. Em 1992, deu o salto para a SIC

Em 1997 recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival FIGRA, em França, pela reportagem A Condição Humana, sobre urgências hospitalares.

Em 1993 estreou-se na escrita, com o romance Daqui a Nada, vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU, reeditado em 2005. Também em 2005 lançou o best-seller A Casa Quieta e assinou o argumento da longa-metragem Coisa Ruim, correalizada pelo seu irmão Tiago Guedes. Em 2006 foi coautor do filme Alta Fidelidade, exibido na SIC.

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