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Maioria dos apelos ao SOS-Criança são feitos por crianças que se sentem sós

A maioria dos apelos que chegam diariamente à Linha SOS-Criança são feitos por crianças que se sentem sós, mesmo acompanhadas em casa, disse esta quarta-feira à agência Lusa o coordenador do serviço, Manuel Coutinho.

Desde 1998 (ano em que o serviço foi criado) já chegaram mais 116 mil situações à Linha. Em 2014, recebeu 5799 novas situações. (Arquivo)

Desde 1998 (ano em que o serviço foi criado) já chegaram mais 116 mil situações à Linha. Em 2014, recebeu 5799 novas situações. (Arquivo)

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Segundo o psicólogo, 64% dos apelos que chegaram no ano passado ao serviço telefónico do Instituto de Apoio à Criança (IAC) foram feitos por "meninos, meninas e jovens que queriam falar com alguém".

"As crianças e os jovens, por vezes, vivem numa solidão acompanhada. Estão pessoas perto deles, mas não têm confiança, não têm à vontade para falar com essas pessoas e ligam para o serviço SOS-Criança", contou Manuel Coutinho.

Estas crianças "estão sozinhas e fechadas dentro delas próprias e são essas crianças, com dúvidas existenciais, com ideação suicida, com angústia, com os medos depressivos que procuram frequentemente" este serviço.

O secretário-geral do IAC explicou que o que "acontece muito" é as famílias estarem a passar por "períodos de grande fragilidade, não conseguindo conter" a pressão que recai sobre elas.

Ao não conseguirem enfrentar "tanta dificuldade" deixam, por vezes, "perpassar para as crianças uma falta de cuidado e atenção adequada" ou "não têm recursos nem meios para fazer frente à dificuldade e às necessidades que as crianças hoje precisam".

Por outro lado, as famílias têm cargas horárias cada vez maiores que não se compatibilizam com os horários das escolas, o que contribui para que muitas crianças passem mais tempo sozinhas e aumente os seus sentimentos de "angústia e solidão", advertiu o psicólogo.

Desde 1998 (ano em que o serviço foi criado) já chegaram mais 116 mil situações à Linha. Em 2014, recebeu 5799 novas situações.

Segundo Manuel Coutinho, "a complexidade dos apelos apresentada", desde que o serviço foi criado, "tem vindo a aumentar" e as situações a tornarem-se "cada vez mais delicadas" e mais difíceis de resolver.

Para o psicólogo, esta realidade exige "um maior trabalho de articulação e parceria" com todos os serviços de apoio e proteção das crianças para "encontrar uma resposta conjugada que permita ajudar a criança a retomar o normal funcionamento no seu dia-a-dia".

Há outras questões que fazem com que as crianças liguem, muitas delas relacionadas com pedidos de prevenção e de apoio, que totalizaram 25% das situações no ano passado.

"Quando as crianças estão com dúvidas existenciais e estão aflitas ligam para o SOS-Criança, mas muitas vezes são também os adultos que procuram ajuda", contou.

Vinte por cento dos apelos que chegaram à linha, em 2014, foram de crianças em risco, enquanto 18% foram de crianças vítimas de negligência e 12% vítimas de maus-tratos físicos dentro da família.

Os maus tratos psicológicos representaram 9% de apelos e as questões da regulação do exercício das responsabilidades parentais 8%.

"Há aqui um conjunto de situações que está próxima do mundo das crianças e em que a sociedade em geral tem que pôr a lupa e dar maior atenção", defendeu Manuel Coutinho, destacando a importância de divulgar o serviço gratuito SOS-Criança (116111) para chegar a um maior número de pessoas.

Das crianças apoiadas pelos técnicos da linha no ano passado, 54% eram meninas.

No último ano, 47% dos apelos eram de Lisboa, 19,5% de Viseu 16% do Porto, 11% de Setúbal, 4% de Faro e 3% de Aveiro.

Lusa

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