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Há ruas em Alfama em que "já não se fala português"

A Associação do Património e População de Alfama (APPA) promove no sábado um debate sobre o futuro deste bairro lisboeta, onde proliferam alojamentos turísticos e saem residentes, originando casos de ruas em que "já não se fala português".

© Rafael Marchante / Reuters

"Na Rua de São Pedro já não se fala português, na Rua dos Remédios já não se fala português e na Rua de São Miguel já não se fala português", disse à agência Lusa a presidente da APPA, Maria de Lurdes Pinheiro.

A representante, que já foi presidente da Junta de Freguesia de Santo Estêvão, salientou que, apesar de o turismo ser importante para a economia, é necessário alertar para as suas consequências negativas, resultantes da proliferação de unidades de alojamento local e de hotéis.

"Parece que agora toda a gente começa a acordar desta 'turistificação' desenfreada que está a acontecer em Alfama", considerou.

Conhecedora do território, Maria de Lurdes Pinheiro exemplificou que famílias que nasceram e sempre viveram no Beco da Lapa, perto de Santa Apolónia, já estão a morar noutro sítio.

Acresce que, "com esta questão da lei das rendas, também terminam agora aqueles contratos de cinco anos e há muita a gente a ter de sair, não é a querer", frisou.

Contando com sociólogos (José Luís Casanova), antropólogos (Adília Rivotti e Laura Almodovar) e arqueólogos (Clementino Amaro), o debate visa "conversar com pessoas que já estudaram isto e que até têm escrito sobre esta situação", de forma a encontrar soluções para os residentes.

"Queremos evitar estas situações. Ainda para mais sendo um bairro histórico e com tantos anos, que é lindo pelas pessoas que lá vivem e pelas coisas que já lá existem", referiu Maria de Lurdes Pinheiro.

O debate "Alfama: Turismo, tradição e futuro" decorre, a partir das 15:30, no Museu do Fado.

Uns dias depois, na segunda-feira, a questão da habitação na cidade volta a estar em foco no debate "Quem vai poder morar em Lisboa?", que visa abordar temas como a gentrificação (valorização imobiliária de uma zona urbana, geralmente acompanhada da deslocação de residentes), o turismo e a subida nos preços do mercado imobiliário, falando das causas e consequências e propondo soluções.

Segundo a informação disponível no evento criado na rede social Facebook, o debate - que é organizado por "um grupo informal de lisboetas" - contará com convidados como o arquiteto Manuel Graça Dias e os investigadores Pedro Bingre, João Seixas e José Manuel Henriques.

No texto de suporte ao encontro, lê-se que "a grande intensificação do turismo em Lisboa tem implicado transformações significativas na vida de quem nela habita".

Na ótica dos signatários do documento e organizadores do debate, "urge estancar a sangria do centro histórico da cidade e regular a atividade turística para que sirva os interesses da cidade, de quem a habita e de quem a visita".

O debate realiza-se na sede da Trienal de Arquitetura (Palácio Sinel de Cordes) às 18:30.

Na sessão da Assembleia Municipal de Lisboa da passada terça-feira, os deputados (que são, em maioria, eleitos pelo PS) rejeitaram uma moção apresentada pelo BE que visava a criação de limites ao licenciamento de estabelecimentos de alojamento local por requerente e por prédio, bem como de um regulamento municipal sobre o assunto.

Ainda assim, a Câmara instou o Governo a participar no debate em torno do alojamento local, considerando que "ainda não há certeza" de quais as medidas mais eficazes nesta matéria.


Lusa

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