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Associação recém-criada ajuda no primeiro dia seis homens vítimas de abuso sexual

© ERIC THAYER / Reuters

A associação "Quebrar o Silêncio", única no apoio a homens vítimas de abusos sexuais, recebeu seis pedidos de ajuda no primeiro dia de atendimento e pelo menos duas pessoas por dia recorreram à associação na primeira semana de funcionamento.

Em entrevista à agência Lusa, o presidente da associação explicou que a ideia e a vontade em criar um apoio específico para homens e rapazes vítimas de abuso sexual vieram do facto de ele próprio ter sido abusado durante vários meses por um amigo da família, quando tinha 11 anos.

"As consequências do abuso foram graves, nomeadamente vergonha intensa, sentimento de culpa, incapacidade, por exemplo, de confiar nos homens e uma série de outros sintomas", adiantou Ângelo Fernandes.

Só muito mais tarde, já adulto e a viver no Reino Unido, encontrou ajuda terapêutica com uma associação que se dedicava a apoiar homens vítimas de abusos sexuais.

"No meio desse processo, quando eu senti que estava a ficar melhor, que estava a conseguir ultrapassar o trauma, começou a nascer em mim uma necessidade de voltar a dar toda a ajuda que eu tive, durante esse processo, e foi aí que surgiu a ideia de criar esta associação", acrescentou.

A associação "Quebrar o Silêncio" teve o seu lançamento oficial na passada quinta-feira, dia 19 de janeiro, em Lisboa, tendo recebido no primeiro dia seis pedidos de ajuda, e uma semana depois, até ao dia 26, 15 pessoas tinham recorrido aos serviços da organização.

De acordo com Ângelo Rodrigues, as idades de quem pediu ajuda à associação variam entre os 22 e os 50 anos.

"Grande parte das pessoas vem de Lisboa, mas não só. Algumas eram do norte do país, do sul, fora do país também", revelou, acrescentando que estão em causa não só abusos recentes, mas também abusos ocorridos na infância.

O responsável adiantou que são poucos os casos em que os homens fizeram queixa na polícia, apontando que é muito difícil para os homens falarem sobre os abusos sexuais de que foram ou são vítimas.

Para Ângelo Rodrigues, são muitas as barreiras atuais que impedem ou dificultam que um homem peça ajuda quando é abusado sexualmente, já para não falar dos vários mitos à volta da masculinidade.

"Existe muito a ideia de que um homem não pode ser vítima de abuso sexual, quando é abusado por uma mulher é porque teve sorte, também há aquela ideia de que a violação entre homens só acontece nas prisões. Existe uma série de ideias que estão erradas", apontou.

Referiu, por outro lado, tendo por base estudos internacionais, que um em cada seis homens é vítima de abuso sexual antes dos 18 anos, no entanto, os números mostram que apenas 16% considera ter sido vítima, havendo também muitos casos que não são considerados crime ou são mal diagnosticados.

"Se apenas 16% dos homens se considera vítima e apenas 3,9% é que realmente vai à polícia e participa, estamos a contar com uma percentagem muito pequena da realidade", sublinhou, ressalvando que existe muita vergonha e muito sentimento de culpa por parte dos homens.

Ângelo Rodrigues adiantou que o propósito da associação é ajudar a vítima a ultrapassar o trauma, havendo, para isso, grupos de apoio e de psicoterapia.

Os serviços são gratuitos, anónimos e confidenciais e a associação (quebrarosilencio.pt) funciona de segunda a sexta, das 09:00 às 17:30, exceto quando há grupos de apoio, em que os horários são feitos em função dos participantes.

A "Quebrar o Silêncio" tem também como missão ajudar a desmistificar esta questão junto das escolas, tendo já marcadas várias sessões de esclarecimento, sendo que as crianças e os menores de idade são outra das preocupações.

Lusa

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