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Grande Reportagem Interativa

Equitação com Fins Terapêuticos

A Equipa Técnica do Centro de Equitação Terapêutica da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa escreve, para a Grande Reportagem SIC, sobre a história da Equitação com Fins Terapêuticos em Portugal e sobre as várias valências desta abordagem terapêutica.

A Equitação com Fins Terapêuticos alia os conceitos base da Equitação Clássica com os fundamentos teóricos da Reabilitação, cujos contributos se refletem a nível neuromotor, cognitivo e psicossocial. É utilizada mundialmente por técnicos de saúde e educação, nomeadamente por Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais, Terapeutas da Fala, Técnicos de Psicomotricidade e Psicólogos.

A Federação Internacional (HETI) - Cavalos na Terapia e na Educação preconiza três valências de intervenção: Hipoterapia, Equitação Terapêutica e Equitação Desportiva Adaptada.

A Hipoterapia é uma valência de orientação clínica que só pode ser conduzida por terapeutas (terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e terapeutas da fala) e que tem como objetivo a reabilitação neuromotora e não o ensino equestre.

Quando os objetivos a desenvolver são psicomotores falamos da valência de Equitação Terapêutica. Os objetivos estão direcionados para necessidades específicas na área educacional, psicológica ou cognitiva, podendo ser contemplados progressos no ensino equestre.

Na valência de Equitação Desportiva Adaptada o treinador de equitação e o cavaleiro trabalham em conjunto para desenvolver competências equestres. Os objetivos não são terapêuticos, como nas valências de Hipoterapia e de Equitação Terapêutica, mas de natureza desportiva ou de lazer.

A Equitação com Fins Terapêuticos é uma mais-valia em qualquer processo terapêutico. Diferencia-se das terapias convencionais pelo facto de ser desenvolvida num ambiente que está longe de ser o tradicional. Regra geral, é uma atividade significativa e leva o indivíduo a envolver-se ativamente no desenvolvimento dos objetivos terapêuticos, facilitando as aquisições. Conduz à maximização dos potenciais funcionais do indivíduo, promovendo uma melhoria no seu envolvimento ocupacional noutros contextos além do equestre.

O andamento do cavalo a passo produz cerca de 60 a 75 movimentos tridimensionais por minuto, equivalentes aos da marcha humana neurofisiologicamente normal. Este movimento proporciona ao cavaleiro uma adequada modulação do tónus e exige constantes reações de antecipação e compensação postural. O cavalo é um agente facilitador (capaz de alterar respostas do sistema nervoso central) e promotor de vivências fundamentais para o desenvolvimento de competências cognitivas e psicossociais.

Nem todos os cavalos podem, no entanto, ser parceiros terapêuticos. Para que este animal tão especial seja um elemento da equipa terapêutica, tem de apresentar um temperamento calmo, estável e paciente, ser saudável e musculado e com andamentos regulares e impulsionados.

Há situações que podem ser de contraindicação para a prática desta atividade terapêutica e cujo despiste deve ser realizado através de exames clínicos e de relatório médico. Há que ter especial atenção à avaliação de situações clínicas não controladas (comportamentais, respiratórias, cardiovasculares, epilepsia, etc.), dor, instabilidade cervical, situações inflamatórias, graves alterações na coluna vertebral (desvios ou fixações), intervenções cirúrgicas recentes e graves alterações vestibulares.

As pioneiras da Equitação com Fins Terapêuticos em Portugal foram as instrutoras Beverly Gibbons e Kathryn Watson com a Associação de Equitação do Algarve (1981) e a Associação Hípica Terapêutica de Cascais (1989) respetivamente, onde desenvolveram os primeiros workshops para equipas que pretendiam intervir nesta área. Desde então, através das sinergias que se foram criando entre diferentes centros equestres e associações de apoio à deficiência (IPSS), esta abordagem tem vindo a crescer e a expandir-se, de forma cada vez mais organizada, um pouco por todo o país.

Os primeiros cursos organizados a nível nacional com o intuito de formar os membros das equipas terapêuticas surgiram em 2005/2006. Foram fruto do trabalho desenvolvido por uma equipa de profissionais das áreas da equitação e da reabilitação em parceria com a Escola Nacional de Equitação e passaram a fazer parte do Programa Oficial de Formação de Formadores e Técnicos de Equitação (POFFTE).

Ainda com o apoio da Escola Nacional de Equitação, foi organizada a primeira Pós-Graduação em Equitação com Fins Terapêuticos, que decorreu no ano letivo 2013/ 2014.