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Grande Reportagem Interativa

O que sabemos hoje sobre dislexia

Ana Paula Vale é coordenadora científica e clínica da Unidade de Dislexia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde ensina Psicologia da Linguagem e Cognição. Escreve para a Grande Reportagem SIC sobre o estado actual da investigação em torno da dislexia e sobre boas práticas em termos de diagnóstico, intervenção e abordagem nas escolas.

Em Portugal, a prevalência da dislexia situa-se em 5.4% em crianças do 1.º ciclo , o que significa que é muito provável encontrar uma criança com dislexia em cada turma de 20 crianças. Esta percentagem acompanha as estimativas conhecidas pois encontra-se muito próxima do ponto médio do intervalo dos valores atualmente confirmados em numerosos estudos internacionais, que é 3% - 10%.

A dislexia é uma perturbação do desenvolvimento que se manifesta essencialmente por dificuldades em aprender a ler e a escrever palavras. Quem tem dislexia produz, normalmente, muitos erros, leva mais tempo do que os colegas a ler e a escrever e também pode ter dificuldade em compreender textos escritos.

Existem sinais que alertam para um risco de dislexia logo desde o início da aprendizagem da leitura: um dos mais consistentes é a manifestação de dificuldades na aprendizagem das letras (1) . Outros são a observação de uma discrepância entre o esforço despendido pelas crianças e a qualidade dos seus desempenhos alfabéticos e também a observação de que a distância entre o nível de aprendizagem da criança e o dos seus colegas, em vez de diminuir, permanece ou mesmo aumenta.

Há factos que estão, hoje, bem estabelecidos sobre a dislexia. Um dos principais é que se trata de uma condição que tem uma base genética e por isso as crianças que provêm de famílias em que há membros com dislexia têm uma probabilidade elevada de também terem.

Outro facto diz respeito ao tipo de défices nos mecanismos psicológicos dos indivíduos com este quadro. A investigação vem mostrando que as dificuldades observadas têm por base um défice ao nível do tratamento dos sons da fala (processamento fonológico). Este défice é observável ao longo da vida de indivíduos com dislexia, mesmo quando já aprenderam a ultrapassar as dificuldades de leitura.

Frequentemente, traduz-se em dificuldades em isolar, diferenciar e identificar explicitamente os sons da fala (por exemplo, saber que «casa» e «quivi» começam pelo mesmo som), em problemas de memória verbal, em dificuldades na aprendizagem de palavras novas e línguas estrangeiras e em lentidão no tratamento da informação verbal.

Outros factos, ainda, prendem-se com a verificação de que as manifestações das dificuldades são variáveis, pois dependem do grau de severidade dos défices, do nível de desenvolvimento do indivíduo e dos fatores de risco e/ou protetores que coexistem em cada caso. Por exemplo, os indivíduos cujos défices cognitivo-linguísticos não são muito acentuados produzem poucos erros a ler mas, mesmo assim, são bastante mais lentos do que os seus colegas a realizar as tarefas que implicam leitura e/ou escrita. Também pode acontecer que as dificuldades sejam mais visíveis na escrita do que na leitura. Este tipo de dificuldades causa normalmente impacto não apenas na qualidade da leitura e da escrita mas também nas aprendizagens académicas que dependem da leitura e da escrita.

Com base nos factos enunciados acima, sabemos que a dislexia não deve ser diagnosticada, apenas, a partir da avaliação dos desempenhos alfabéticos (ler e escrever). Para além de ser necessário verificar estes desempenhos, é determinante para o seu diagnóstico avaliar a integridade dos processos psicológicos atrás mencionados. Isto significa que o diagnóstico da dislexia deve ser efetuado por técnicos com formação específica em cognição e linguagem e que, além disso, conheçam os mecanismos de funcionamento da leitura e da escrita enquanto atividades cognitivas e conheçam também as particularidades e os percursos do desenvolvimento na aprendizagem da língua e da ortografia portuguesas.
O papel do nível cognitivo geral dos indivíduos (inteligência) no diagnóstico está hoje mais bem esclarecido e é agora amplamente reconhecido que a dislexia pode ocorrer em praticamente todo o contínuo dessas capacidades. Por tudo isto, a prática de uma avaliação e de um diagnóstico feitos com suporte em teorias validadas cientificamente justifica-se não apenas em si mesma mas porque permite também planear intervenções de qualidade.

A dislexia pode ser compensada com intervenção apropriada (2). O trabalho que temos realizado na Unidade de Dislexia da UTAD ensinou-nos que as crianças com dislexia têm normalmente muita dificuldade em compreender o mecanismo das tarefas alfabéticas e por isso é essencial que o funcionamento do sistema alfabético lhes seja tornado explícito.

Uma vez que a dislexia decorre fundamentalmente de um défice ao nível do tratamento da informação fonológica, a intervenção mais eficaz deve assentar obrigatoriamente no trabalho com esse tipo de mecanismos. É indispensável que a intervenção inclua trabalho sobre linguagem, sobre fala e sobre as suas relações com a ortografia. É por isso vital que as palavras usadas no processo de intervenção sejam escolhidas criteriosamente com base nas suas características psicolinguísticas e tendo como alvo as dificuldades específicas que cada indivíduo apresenta.

Na escola, é muito importante que os professores usem métodos fónicos para ensinar a leitura, isto é, métodos em que se ensina explicitamente as relações entre sons da fala e letras. Além disso, é necessário que os professores ensinem as crianças com dislexia a usar mais tempo do que o normalmente previsto para o grupo, para completar as tarefas alfabéticas com sucesso.

Como os mecanismos cognitivos e linguísticos responsáveis pelo tratamento da informação alfabética não estão perfeitamente automatizados nas crianças que têm dislexia, elas têm de realizar um controlo consciente das tarefas durante mais tempo do que os seus colegas, o que cansa mais e gasta mais tempo. Ser permitido usar mais tempo é determinante na evolução das aprendizagens porque sem experimentar sucesso não é possível tornar os processos mais automáticos e, sem isso, não é possível progredir.

A dislexia interfere negativamente não apenas nas dificuldades escolares como também no desenvolvimento da autoestima, na motivação escolar, nas relações interpessoais e na realização profissional. Por isso, a inclusão de animais num programa de intervenção pode desempenhar um papel importante na motivação e no envolvimento das crianças nas tarefas. No entanto, o desenho e o conteúdo da intervenção devem ser, tal como foi acima referido, direcionados para o padrão específico das dificuldades, sob pena de a dislexia não estar a ser eficazmente combatida.

Para um prognóstico mais favorável, a intervenção deve iniciar-se tão cedo quanto possível e, além disso, deve ter uma periodicidade regular e ser intensiva.

Ana Paula Vale

Psicóloga, doutorada em Psicologia, Ana Paula Vale é Professora de Psicologia da linguagem e cognição na UTAD, em Vila Real. Dirigiu e é hoje vice-diretora do curso de Psicologia e pesquisadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), da Universidade do Minho.
Tem realizado investigação na área da linguagem e da dislexia, tendo coordenado projectos FCT de investigação em Portugal e participado em equipas internacionais de pesquisa sobre o tema. Publica regularmente em revistas científicas da especialidade. É coordenadora científica e clínica da Unidade de Dislexia, serviço que criou na UTAD, em 2005.
Obteve em 2011 o prémio Seeds of Science, Ciência Hoje, Portugal, pela investigação que realizou em Dislexia. Em 2013 obteve, como membro da equipa CIEC e EP da Universidade do Minho, o 9.º Prémio CEGOC pela criação da "Bateria de Avaliação da Leitura".


1 <http://europepmc.org/abstract/med/24341976>

2 Sousa, J. Martins, B. & Vale, A.P. (2014). Intervenção em dislexia - Estudos de Caso. In J. P. Oliveira, T. M. S. Braga, F. L. P. Viana & A. Sucena (Orgs.). Afabetização em países de língua portuguesa: pesquisa e intervenção (pp. 85-119). São Paulo: Editora CRV

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