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Obesidade e dependências

Gabriela Ribeiro e Albino Oliveira Maia são investigadores do Centro Clínico e do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud. Escrevem para a Grande Reportagem SIC sobre dependências alimentares.

A prevalência crescente da obesidade tem motivado grande interesse no estudo dos seus determinantes, ultimamente em particular no papel da ingestão de alimentos de elevada palatibilidade, nomeadamente os alimentos ricos em açúcar. 

À semelhança do que acontece com outras substâncias causadoras de dependências, o consumo de alimentos com o intuito de induzir sensações de prazer envolve a ativação de neurónios e vias dopaminérgicas, ainda que, possivelmente, através de mecanismos distintos. 

As respostas de recompensa pelo consumo de açúcar têm sido extensamente demonstradas, particularmente em roedores. Nesta espécie, a perceção do sabor doce parece ser suficiente para provocar essas respostas e a libertação de dopamina no cérebro.

No entanto, em trabalho que desenvolvemos no passado, foi possível demonstrar que o valor calórico dos açúcares também ativa o sistema dopaminérgico por mecanismos sensoriais puramente pós-ingestivos, independentemente do sabor doce. 

Estudos em animais sugerem ainda que o consumo excessivo de açúcar leva a alterações no sistema dopaminérgico, comparáveis às que se verificam em animais expostos a substâncias como o álcool.

De forma similar, em humanos, o estudo de indivíduos com obesidade evidenciou semelhanças funcionais em circuitos neurais relacionados com o processamento da recompensa, em relação a indivíduos que sofrem de dependência de substâncias. 

À semelhança do que acontece com pessoas dependentes de cocaína, metanfetaminas, álcool ou heroína, verificam-se também, em pessoas com obesidade severa, reduções significativas de recetores de dopamina em determinadas zonas do cérebro, quando comparados com pessoas saudáveis.

Para além de semelhanças neurobiológicas, há também paralelismos clínicos entre as dependências químicas e a obesidade. 

Ao atribuir à ingestão excessiva a conotação de comportamento aditivo, não é de todo apropriado abranger todos os casos de obesidade. No entanto, em alguns indivíduos obesos verificam-se comportamentos classicamente associados à dependência de substâncias, tais como a perda de controlo sobre o consumo, dificuldade em diminuir a quantidade ou a frequência do uso da substância, e consumo continuado – apesar da perceção de consequências negativas, tais como problemas físicos ou emocionais.

Para além disto, tanto os indivíduos dependentes como os indivíduos com obesidade são frequentemente mal sucedidos nas tentativas de parar ou reduzir o consumo, o que é frequentemente acompanhado de sentimentos de culpa e angústia. 

Com o objetivo de explorar o conceito de “dependência alimentar” em humanos, foi desenvolvida a Yale Food Addiction Scale, um questionário que adaptou ao comportamento alimentar os sete critérios de diagnóstico de dependência definidos na quarta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 

Através deste instrumento, que estamos a adaptar para utilização em Portugal, foi possível observar uma prevalência de “dependência alimentar” de 5.4 a 24.0% em amostras comunitárias, de 15.2 a 38.0% em indivíduos com excesso de peso e de 41.7 a 68.2% em indivíduos com obesidade severa. Assim, a dependência alimentar parece estar claramente associada à presença de obesidade, existindo no entanto também em pessoas com peso normal. Não é ainda claro quais as suas consequências nesse grupo.

Apesar dos vários aspetos etiológicos aparentemente relacionados, existem distinções relevantes entre a dependência de drogas e o conceito de dependência alimentar. A mais notável é que os alimentos, ao contrário das drogas, são indispensáveis à vida. Desta forma, a regulação neurobiológica da ingestão alimentar é bastante mais complexa do que a regulação do abuso de drogas, já que existe uma panóplia de regiões anatómicas, hormonas e neurotransmissores que modulam a ingestão alimentar, para além dos mecanismos de recompensa. 

No entanto, em alguns indivíduos, é possível que um fenótipo de dependência alimentar se adeque melhor aos seus sintomas e comportamentos, contribuindo para novas perspetivas de intervenção farmacológica e de intervenções terapêuticas para o tratamento da obesidade.


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